Warchavchik revela obra que mudou o Brasil
By Iris Andrade
Pioneiro da arquitetura modernista no Brasil resiste ao tempo em São Paulo
Em meio a mudanças urbanas e disputas por tombamento, o legado de Gregori Warchavchik permanece como marco fundador da arquitetura moderna no Brasil. Nascido em 1896, o arquiteto russo-ucraniano ganhou espaço no debate brasileiro ao defender uma ruptura com o ornamento tradicional, propondo uma visão de “máquina de morar” que influenciaria gerações de designers e construtores.
Contexto histórico
A trajetória de Warchavchik ganhou impulso após sua atuação no exterior e sua chegada ao Brasil em 1923. No início da década de 1920, ele articulou um posicionamento crítico em relação aos estilos herdados do passado, defendendo a ideia de que o passado poderia ficar para trás em favor de uma arquitetura que atendesse às necessidades da vida moderna.
Em 1927, em Vila Mariana, São Paulo, o arquiteto realizou a primeira residência brasileira a seguir esses princípios, erguendo a Casa Modernista na rua Santa Cruz, número 325, para viver com a esposa Mina Klabin. O projeto abriu caminho para que conceitos modernistas entrassem no cotidiano das habitações nacionais.
Casas que resistem
Além da residência de 1927, outras obras de Warchavchik ganharam destaque na cidade. Estável e preservada, a casa da rua Bahia e a casa da rua Itápolis, ambas no Pacaembu, são exemplos que permaneceram mais próximas da proposta original ao longo das décadas.
O edifício Mina Klabin
Outro marco do repertório do arquiteto é o edifício Mina Klabin, erguido em 1939 no eixo da Alameda Barão de Limeira. O prédio, com varandas curvas e traços que apontam referências art déco, foi pensado originalmente para aluguel comercial, o que explica o estilo menos radical do conjunto.
Norteado pela eficiência do mercado, o Mina Klabin permaneceu inteiramente utilizável por décadas, mesmo após períodos de deterioração. Hoje, o edifício abriga apartamentos que são mantidos em funcionamento por moradores que também atuam como professores e arquitetos. Apesar de o elevador apresentar falhas, o espaço conserva pé-direito amplo, jardins internos e detalhes que revelam a leitura de um design pensado para a vida cotidiana.
Preservação e desafios
Parte do conjunto moderno de São Paulo está sob tombamento municipal, o que impõe regras de preservação. A gestão de alguns imóveis é compartilhada entre o Museu da Cidade e o Parque Modernista, geridos pela Secretaria Estadual do Verde e Meio Ambiente, o que gerou, ao longo dos anos, indefinição sobre restauros e uso público. Em 1983, um movimento de bairro impediu a derrubada de uma das casas, mantendo a área verde ao redor, resultado também de iniciativas da família do arquiteto.
O destino de espaços como a casa da rua Santa Cruz ganhou contornos complexos. Houve propostas para instalar ali o Museu da Casa Brasileira, mas a desistência formal reencontrou espaço para novas leituras e planos, que ainda aguardam resolução. Segundo o arquiteto Marcos Cartum, diretor do Museu da Cidade, a leitura sobre o que constitui “arquitetura modernista” aponta para uma distinção entre a ideia de modernidade contida na obra de Warchavchik e o papel posterior de nomes como Lucio Costa e Niemeyer na consolidação de uma identidade nacional mais ampla.
Legado e memória
Para o historiador José Lira, Warchavchik é reconhecido como introdutor da arquitetura modernista no Brasil, ainda que sua presença pública tenha sido menos visível do que a de outros nomes. A crítica persiste sobre o papel da preservação do patrimônio moderno, que hoje demanda atenção para além das grandes obras conhecidas, incluindo uma produção de arquitetura cotidiana associada ao período e também vulnerável à especulação imobiliária.
Entre as narrativas que cercam o legado, destacam-se relatos de tours voltados à memória do Paulistano, conduzidos por especialistas que explicam as modificações ocorridas ao longo do tempo. Um dos espaços históricos permanece aberto ao público de forma limitada, enquanto outros seguem sob gestão institucional, com planos de restauração em andamento que ainda não receberam solução final.
Visitas e memória local
As visitas aos espaços modernos em SP costumam ocorrer com acompanhamento de especialistas. Em alguns casos, apenas a primeira casa pôde ser visitada, com guias destacando as mudanças ocorridas e o estado de preservação. As narrativas apontam para a importância de manter vivos os testemunhos de uma arquitetura que ousou questionar o que poderia ser a casa contemporânea.
O conjunto de obras de Warchavchik em São Paulo permanece como referência histórica e como vetor de debate sobre como equilibrar preservação, uso público e identidade arquitetônica no Brasil.
Fonte: Folha de S.Paulo