Setor de luxo na Argentina revela crise escondida
By Iris Andrade
Setores de luxo prosperam na Argentina enquanto a população enfrenta dificuldades econômicas
Nos últimos meses, a Argentina vive um cenário econômico de contrastes acentuados. Enquanto o mercado de produtos de luxo registra crescimento expressivo, grande parte da população enfrenta queda no poder de compra e aumento no desemprego.
Crescimento do setor de luxo e a percepção de felicidade entre os mais abastados
Desde a chegada ao poder do presidente Javier Milei, o setor de bens de alto padrão tem apresentado números positivos. Vendas de carros importados, imóveis de alto valor e viagens internacionais tiveram alta significativa, impulsionadas por uma valorização do peso e pela liberalização do mercado.
Empresas aéreas relataram aumento na demanda por voos internacionais de Buenos Aires, enquanto concessionárias de veículos de luxo exibem estoques enchidos de modelos premium, com vendas que ultrapassaram o mesmo período de 2024. Segundo dados oficiais, as vendas de automóveis de marcas como Porsche, Audi e BMW cresceram cerca de 78% no primeiro semestre, com muitas unidades sendo vendidas para uma clientela de maior renda.
Contraste com a situação dos setores populares e o aumento da insegurança
Por outro lado, a situação do consumidor comum reflete um quadro de dificuldades. Pesquisa da AtlasIntel aponta que 67% dos argentinos possuem uma visão negativa sobre a economia, e 84% afirmam ter alterado seus hábitos de consumo, cortando gastos com alimentação, roupas e refeições fora de casa. O desemprego formal atingiu o maior nível em quatro anos, enquanto os salários reais continuam em declínio ajustados pela inflação.
“Mal consigo chegar ao fim do mês”, declara Valeria Ruiz, mãe solteira que trabalha como diarista na periferia de Buenos Aires. Ela relata que, há um ano, deixou de frequentar restaurantes e agora busca marcas mais baratas de produtos básicos, como leite, macarrão e iogurte.
As estatísticas indicam que a baixa no consumo é generalizada: 84% dos argentinos mudaram seus hábitos, enquanto 27% dos lojistas avaliam negativamente seus negócios, segundo dados do governo e consultorias locais.
Impacto das políticas econômicas de Milei na vida das pessoas
Permanecendo com índices de alta aprovação, Milei conseguiu implementar medidas como a redução da inflação, a retirada de controles cambiais e a recuperação do mercado imobiliário. Contudo, tais ações elevaram o valor do dólar paralelo e fortaleceram o peso na moeda nacional, além de estimular o consumo de bens duráveis e gastos em viagens internacionais.
Especialistas explicam que o câmbio mais forte ajuda a conter a inflação, porém favorece consumidores de alta renda e torna mais caras matérias-primas e serviços essenciais para a maioria da população, que enfrenta os efeitos de uma economia cada vez mais polarizada.
Perfis econômicos distintos no país
Enquanto a classe alta aproveita os efeitos positivos das reformas, a maioria da população continua a sentir os sinais de crise. O setor imobiliário tem registrado aumento de cerca de 50% nas vendas até maio, e a demanda por carros importados cresceu quase 250%, impulsionada por uma política de importações facilitadas pelo governo de Milei.
Especialistas afirmam que essa dualidade é consequência de uma política econômica voltada para o fortalecimento do peso e do câmbio, com pouca atenção às dificuldades do consumidor comum. Como consequência, o volume de restaurantes na capital tem diminuído, escritórios comerciais permanecem vazios, e hotéis acusam ocupação abaixo do esperado, refletindo a desaceleração do consumo de lazer e serviços tradicionais.
Perspectivas para o futuro político e econômico
Fiscalizando o cenário político, analistas indicam que a opinião pública tende a ser decisiva nas eleições de meio de mandato, que ocorrerão em três meses. A expectativa é de que a popularidade de Milei possa variar conforme a percepção da população sobre a melhora ou piora na qualidade de vida.
Enquanto isso, a análise de especialistas aponta que a economia argentina deve crescer cerca de 5% em 2025, ainda que os sinais de recessão, desemprego elevado e queda no consumo continuem a preocupar. Com a retomada do setor de automóveis e imóveis, as disparidades sociais reforçam o desafio de uma política mais inclusiva.
De acordo com fontes do mercado e estudos acadêmicos, a polarização entre os segmentos sociais se intensificará enquanto o governo mantiver suas medidas de estímulo ao consumo de bens duráveis e viagens, enquanto a recuperação de setores essenciais continua a apresentar sinais de estagnação ou queda na demanda.
Fonte: Valor Econômico