Reinventar a cidade: ideias que surpreendem
By Iris Andrade
Arquitetura e urbanismo respondem à crise climática com soluções sistêmicas e baseadas na natureza
Em meio aos impactos cada vez mais relevantes da mudança climática sobre o espaço urbano, profissionais da arquitetura e do urbanismo propõem respostas que combinam abordagem sistêmica, soluções inspiradas na natureza e tecnologias modernas. O discurso ganha relevância à medida que grandes eventos e pesquisas divulgam caminhos para reverter sobrecargas térmicas, alagamentos e escassez de recursos, sem abrir mão da qualidade de vida nas cidades.
Um fio histórico que ancora a discussão
A investigação sobre como a urbanização se organiza frente ao clima tem raízes antigas. Registros apontam Uruk, a “cidade” da Mesopotâmia, como uma das primeiras ocupações urbanas já com desenhos que buscavam um microclima urbano adequado para enfrentar o sol intenso. Avanços tecnológicos e a expansão das áreas urbanas, sobretudo a partir da Revolução Industrial e da modernização do século XX, distanciaram clima e natureza da prática cotidiana da construção. Hoje, diante de eventos climáticos extremos, o debate retorna com força sobre o papel da arquitetura na reversão desse desequilíbrio.
Bienal de Arquitetura de SP aponta caminhos para extremos urbanos
Com o tema Extremos: arquitetura para um mundo quente, a 14ª edição da Bienal Internacional de Arquitetura de São Paulo reuniu mais de 200 trabalhos de 30 países, buscando soluções para aquecimento global e adaptação das cidades. Entre as referências está o legado do arquiteto chinês Kongjian Yu, criador do conceito de “cidade-esponja”, falecido recentemente. A ideia central é atuar nas bacias hídricas, cuidando de nascentes, retardando fluxos de água e acomodando cheias para que a água chegue aos destinos de forma mais limpa e distribuída ao longo do tempo.
Para a curadora Anália Amorim, o conceito é especialmente pertinente quando se olha para o Brasil, onde a maior parte da população vive em áreas urbanas. Em termos práticos, a cidade-esponja sugere estratégias para absorção de águas pluviais, recarga de aquíferos e gestão de excedentes, áreas que exigem planejamento de larga escala e integração com políticas públicas.
Conhecimentos tradicionais aceleram novas soluções urbanas
Além das propostas de alto calibre, a Bienal também destaca saberes de povos originários e comunidades quilombolas como fontes de inovação. Instalações que apresentam técnicas construtivas ancestrais ganham espaço ao lado de propostas contemporâneas, conectando práticas de habitação com recursos naturais disponíveis nos territórios. Em especial, espaços de cooperação entre associações e comunidades indígenas mostram como o uso de materiais locais e sabedoria de manejo de água e clima pode dialogar com métodos modernos de construção.
Em São Paulo, redes colaborativas de arquitetura trabalham com comunidades para ampliar o impacto positivo de intervenções urbanas. Projetos de cozinha comunitária para comunidades como Yakã Porá, da população Guarani M’bya, em Ubatuba, priorizam materiais regionais, técnicas de construção simples e eficientes, e também a incorporação de conhecimentos adicionais ao processo, conectando técnicas tradicionais com inovações contemporâneas.
Água, vegetação e comunidades: cenários de urbanismo para o futuro
Entre as ações apresentadas, destaca-se a concepção de ecossistemas híbridos em áreas costeiras, que funcionam como barreiras naturais, habitats, paisagens e espaços de convivência. Em trabalhos de redes de arquitetura, a integração de recursos hídricos, manejo da água, ventilação natural e uso eficiente de energia aparece como eixo central de projetos que visam a resiliência urbana.
Em uma vitrine de propostas, cinco projetos chineses exploram cenários de água em diferentes escalas urbanas, discutindo como o urbanismo pode favorecer a sustentabilidade da água e a qualidade ambiental. A partir dessas leituras, surgem questões sobre como o planejamento urbano pode incorporar redes de água, manejo de risco de enchentes e uso responsável de recursos hídricos.
Descentralização de soluções: materiais, novas técnicas e reuso
O legado brasileiro da cobogó — tijolo vazado criado para favorecer iluminação e ventilação naturais — permanece como inspiração para soluções modernas de ventilação, iluminação e eficiência energética. Hoje, esses elementos são produzidos em formatos variados, com materiais que podem incluir resíduos de obras, conectando-se a estratégias de construção de baixo carbono. Em escala global, relatórios recentes apontam que muitos países trabalham para reduzir o impacto ambiental da construção, promovendo materiais de baixo carbono, eficiência energética e energias renováveis, diante de uma indústria que consome parcela significativa da energia mundial.
No Brasil, projetos de engenharia e arquitetura destacam a importância de considerar a geografia local como ponto de partida, buscando edificações que dialoguem com a topografia, o clima e as características da cidade. Tecnologias de automação, economia de água e energia, e estratégias de ventilação e iluminação natural aparecem como componentes complementares que ampliam a eficiência de grandes equipamentos urbanos.
Entre exemplos práticos, destaca-se o caso de um centro cultural dedicado a integrar territórios: a obra utiliza estruturas e sistemas que justificam seu funcionamento pela ligação com a paisagem e com o entorno urbano, buscando manter a relação harmoniosa entre uso público, eficiência e respeito ao ambiente. A aposta é que edificações com boa integração com a cidade promovam uso consciente de recursos naturais sem abrir mão de qualidade de vida.
Tank Shanghai e outros exemplos de transformação do território
Projetos em áreas industriais desocupadas, como o Tank Shanghai, ilustram a possibilidade de transformar espaços produtivos em áreas de lazer e convivência comunitária, após processos de descontaminação e reocupação que respeitam a história do lugar. Esses casos reforçam a ideia de que o urbanismo pode ser uma ferramenta de regeneração ambiental e social ao mesmo tempo em que promove atividades culturais e de encontro público.
Reverdepurar imaginários: convivência humana com a natureza
Observações da natureza, como o trabalho do joão-de-barro na construção de ninhos, ajudam a reforçar uma compreensão de que cidades não devem dominar a natureza, mas dialogar com ela. A abordagem sistêmica em debate destaca três pilares básicos para a vida urbana: verde, água e solo. Parques, praças, áreas permeáveis e solos vivos são citados como componentes centrais para infiltração de água, regulação de temperatura e resiliência ecológica das cidades.
Em São Paulo, iniciativas locais já envolvem nascente em praças, agroflorestas urbanas, hortas comunitárias e sistemas de permeabilidade, sugerindo que ações de menor escala também podem inspirar políticas públicas mais amplas. Ao revisitar conceitos de direito à cidade, a discussão reforça que a transformação urbana deve considerar o território como um conjunto de recursos, vulnerabilidades e oportunidades para a melhoria da qualidade de vida de presentes e futuras gerações.
O papel do Sesc São Paulo na promoção da sustentabilidade urbana
Na prática institucional, a arquitetura das unidades do Sesc São Paulo tem buscado incorporar sustentabilidade desde a concepção até a operação. Projetos de construção seguem critérios de eficiência hídrica, iluminação natural, ventilação cruzada e gestão de resíduos. A rede de unidades investe em iluminação de baixo consumo, automação predial e equipamentos de alta eficiência, com um conjunto de unidades que utilizam aquecimento solar para água de chuveiros e de piscinas.
Alguns empreendimentos já alcançaram certificação ambiental LEED, demonstrando compromisso com padrões internacionais de desempenho sustentável. Além das edificações, a organização mantém áreas verdes extensas e reservas naturais, ampliando o espaço de atuação ambiental para além do entorno construído. Centros de Educação Ambiental oferecem espaços permanentes para atividades educativas sobre questões socioambientais, conectando cultura, educação e prática ambiental cotidiana.
Conclusão: uma cidade que se molda para além da rentabilidade imediata
O conjunto de referências aponta para uma urbanidade que não depende apenas de novas estruturas, mas de uma visão integrada em que água, vegetação, materiais, tecnologia e saberes tradicionais se conectam. O desafio é grande: transformar a forma como construímos, ocupamos e convivemos com o território, assegurando serviços, bem-estar e sustentabilidade para as gerações presentes e futuras.
Fonte: Revista E – Edição NOV/25