Recompra de cotas em FIIs: aumente seus ganhos?
By Iris Andrade
Recompra de cotas em fundos imobiliários pode aumentar ganhos, mas traz também riscos
Após autorização da CVM em maio para que fundos imobiliários recomprassem suas próprias cotas, gestoras já começaram a levar a pauta a assembleias de cotistas. A prática, comum no mercado de ações, pode trazer ganhos reais para os cotistas e melhorar a gestão, mas também apresenta potenciais riscos para investidores menores.
Como funciona a recompra de cotas
O fundo utiliza recursos em caixa para comprar cotas que hoje negociam com desconto em relação ao seu valor patrimonial. Em seguida, essas cotas são canceladas, reduzindo o total de cotas em circulação. Com menos cotas, a participação de cada investidor no patrimônio do fundo tende a aumentar, sem a necessidade de novas emissões.
Quando a estratégia pode gerar ganhos
Especialistas apontam que a recompra pode criar valor para os cotistas por meio da elevação da participação de cada um no patrimônio, o que pode favorecer ganhos por cota no médio prazo. Além disso, a prática tende a alinhar melhor os interesses entre gestor e cotista, já que a taxa de administração costuma incidir sobre o patrimônio do fundo; com menos cotas, esse custo tende a diminuir no curto prazo.
Alguns analistas destacam que a recompra pode também melhorar a liquidez do fundo, já que operações de recompra ajudam a reduzir ofertas excedentes no mercado. Em fundos de fundos e em fundos de recebíveis — ativos de crédito imobiliário — a estratégia pode ser mais eficiente, pois há fluxo de caixa recorrente para reinvestimento.
Cuidados e limites da operação
Mesmo com benefícios, a recompra não garante resultados positivos. Em fundos de “tijolo” (investimentos diretos em imóveis), o impacto pode ser limitado ou até negativo, já que dependem da valorização dos ativos e de novas emissões de cotas para ampliar carteira. Cancelar cotas pode gerar custos adicionais se o gestor precisar emitir novas cotas para investir em ativos futuros.
A prática também pode levantar questões semelhantes à alavancagem: o uso inadequado de caixa para recompras pode comprometer investimentos futuros ou obrigações do fundo.
Há ainda o risco de manipulação de preços no mercado secundário, com possibilidade de a recompra sustentar artificialmente cotações para viabilizar ofertas futuras.
Regras da CVM para as recompras
- Quórum qualificado: aprovações exigem pelo menos 25% dos cotistas em AGE expressamente para a recompra;
- Comunicação: o programa deve ser comunicado à CVM e à B3 com pelo menos 14 dias de antecedência;
- Limite de cotas: no máximo 10% das cotas em circulação podem ser recompradas em um período de 12 meses;
- Condições de preço: as operações devem ocorrer a preços inferiores ao valor da cota apurado no dia útil anterior;
- Cancelamento: as cotas recompradas devem ser canceladas imediatamente após a liquidação, sem manter cotas em tesouraria;
- Transparência: divulgação periódica do volume recomprado, preço médio e impacto no patrimônio.
Vai virar tendência?
Especialistas veem a novidade como um avanço para a indústria de fundos imobiliários, fortalecendo a maturidade do setor ao adotar práticas já comuns no mercado de ações. No entanto, o quórum qualificado restrito pode limitar o número de fundos aptos a realizar recompras, o que pode dificultar que a medida se torne uma tendência entre os grandes fundos. Em fundos menores, fundos multiestratégia e alguns fundos de crédito, a recompra pode ganhar espaço.
Considerações finais para o investidor
Antes de apoiar uma proposta de recompra, o investidor deve avaliar o impacto no patrimônio por cotista, os custos envolvidos com emissão de novas cotas no longo plazo e as condições de liquidez do fundo. A decisão depende do momento de execução e da capacidade do fundo de manter ou ampliar seu desempenho sem comprometer obrigações futuras.
Fonte: Valor Investe