O segredo por trás da arquitetura hospitalar
By Iris Andrade
Escritório responsável pela arquitetura de hospitais que integram o cenário de saúde brasileiro revela trajetória, inovações e projetos de destaque
A RAF Arquitetura, liderada pela arquiteta mineira Cynthia Kalichsztein, ganhou reconhecimento nacional por transformar espaços de saúde em ambientes pensados para o bem‑estar do paciente. O escritório, com atuação desde 1990, participou ativamente da revitalização e expansão de grandes redes, como Rede D’Or e Einstein Hospital Israelita, consolidando-se como referência em arquitetura hospitalar no Brasil. Atualmente, a equipe paulistana com sede em São Paulo soma centenas de projetos e atua também no exterior.
Trajetória e liderança de uma referência no setor
Fundada em 1990 por Aníbal Sabrosa, Rodrigo Sambaquy e Flávio Kelner, a RAF abriu uma filial em São Paulo em 2000. Cynthia, que já atuava no escritório desde 2000, tornou‑se sócia e passou a conduzir a atuação na capital. Hoje, a empresa conta com cerca de 90 profissionais entre Rio de Janeiro e São Paulo e já entregou aproximadamente 500 projetos, totalizando cerca de 3 milhões de metros quadrados construídos em grandes cidades brasileiras e em países como Arábia Saudita, África do Sul e França.
Entre as obras de destaque está a modernização e expansão de hospitais relevantes do país, incluindo unidades da Rede D’Or, Dasa e o Einstein Hospital Israelita (antigo Hospital Israelita Albert Einstein).
Abertura econômica e impulso do capital estrangeiro
O setor experimentou uma guinada em 2015, com a alteração da lei orgânica da saúde que abriu espaço para a participação de capital estrangeiro em entidades privadas do setor. O patrimônio internacional passou a ter mais espaço, dinamizando o mercado e permitindo aquisições de hospitais, clínicas e laboratórios. Na prática, isso resultou na formação de grandes grupos de saúde com maior capacidade de investimento para reformular ativos e ampliar operações.
Como exemplo, em abril de 2015 o Carlyle adquiriu 8,3% da Rede D’Or por cerca de R$ 1,75 bilhão, com recursos usados na expansão de unidades regionais e na ampliação de operações já existentes. A tendência de consolidação ganhou força, e, até 2021, a Rede D’Or incorporou dezenas de hospitais ao seu portfólio.
Casos de inovação: hospitalarização e novas frentes de cuidado
A partir desse happening econômico, os hospitais passaram a adotar um conceito de “hotelaria hospitalar”, ampliando o foco para amenidades, bem‑estar do paciente e conforto dos acompanhantes, sem deixar de lado a infraestrutura tecnológica. O Vila Nova Star, em São Paulo, inaugurado em 2019 pela Rede D’Or, tornou‑se exemplar dessa visão: o projeto priorizou qualidade de hospedagem dentro do ambiente hospitalar, com custos estimados em torno de R$ 350 milhões. O empreendimento contou com sete quartos por andar — bem abaixo da média tradicional de cerca de 30 — apartamentos de 60 metros quadrados, camas inteligentes, enxovais de alto padrão e gastronomia assinada por chefs, buscando oferecer uma experiência mais próxima de um hotel de luxo.
Além dos hospitais, a RAF expandiu o olhar para serviços de cuidado de longo prazo, acompanhando o avanço da indústria de cuidados com idosos e o desenvolvimento de novas instituições de longa permanência.
Parque Global: um megaprojeto multifuncional em operação no Panamby
Outro marco do portfólio é o Parque Global, um complexo urbano avaliado em mais de R$ 14 bilhões, com previsão de conclusão para 2030. O projeto reúne 200 mil metros quadrados, distribuídos em cinco torres residenciais, um centro médico‑hospitalar ligado ao Einstein Hospital Israelita e uma unidade da marca hoteleira V3rso, parte do portfólio do grupo Emiliano. Localizado no Panamby, em São Paulo, o empreendimento representa a tendência de integração entre moradia, saúde e hospitalidade de alto padrão, consolidando o modelo de uso misto como referência para o mercado.
Esse movimento de reconfiguração de ativos de saúde também está ligado a uma estratégia de longo prazo de renovação de portfolios das grandes redes, com foco na qualidade da experiência do paciente e na sustentabilidade financeira dos empreendimentos.
Perspectivas de liderança e visão de longo prazo
Em entrevista, Cynthia enfatiza a importância de repensar o conceito de asilo na arquitetura, buscando quartos com cara de casa, espaços amplos de convivência, áreas de cinema e serviços de bem‑estar. Nesse processo, a RAF continua buscando inovações que aliem eficiência técnica a um ambiente acolhedor, especialmente em projetos para oncologia, geriatria e centros de diagnóstico.
Além das realizações de mercado, a própria trajetória de Cynthia — incluindo o diagnóstico de câncer de mama durante as obras do Vila Nova Star em 2017 — reforça a convicção de que o desenho do espaço pode influenciar diretamente a experiência de tratamento e recuperação, tanto para pacientes quanto para profissionais de saúde.
Fonte: NeoFeed