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Luxo na Argentina de Milei Esconde Crise nas Famílias

By Iris Andrade

Setor de luxo na Argentina de Milei revela desigualdade e desespero popular

Nos últimos meses, a economia argentina apresenta sinais de polarização, enquanto a alta no mercado de bens de luxo contrasta com a crise diária enfrentada pelas camadas mais pobres da população. Desde a vitória de Javier Milei, há cerca de um ano e meio, o país tem mostrado uma dualidade evidente: por um lado, um boom no setor de produtos de alto valor; por outro, uma profunda preocupação social e retratação do consumo popular.

Dados recentes indicam que, enquanto itens de luxo se tornaram acessíveis a uma parcela crescente da elite e de classes favorecidas, a maioria dos argentinos enfrenta dificuldades para manter seus hábitos básicos de consumo. Segundo pesquisa da AtlasIntel, cerca de 60% da população prevê uma redução em seus gastos nos próximos meses, refletindo aumento do desemprego formal e queda no salário real, ajustado pela inflação. Além disso, numerosos relatos mostram uma diminuição na frequência de refeições fora de casa, compras de roupas e viagens nacionais.

Valeria Ruiz, mãe solteira de dois filhos, relata sua situação: ela trabalha como diarista e, recentemente, conseguiu um bico em uma agência de viagens, elevando sua renda mensal para o equivalente a US$ 465. Ainda assim, ela diz que a realidade mudou drasticamente nos últimos meses. “Antes, eu tinha bastante trabalho, hoje tudo parou”, afirma. Uma pesquisa do setor aponta que 84% dos argentinos têm mudado seus hábitos de consumo diante da crise econômica atual.

Alegria para setores de alto padrão

Apesar do pessimismo econômico geral, o setor de luxo tem experimentado crescimento notável. Carros importados, imóveis de alto padrão e viagens internacionais ainda se mostram uma opção de consumo para os mais abastados e profissionais com maior poder de compra. Empresários relatam que as vendas de veículos de marcas como Porsche, Audi e BMW subiram mais de 78% no primeiro semestre, enquanto a aquisição de imóveis cresceu cerca de 50%, na comparação com o mesmo período de 2024.

O aumento da demanda levou companhias aéreas a expandir suas rotas para a Argentina, com novas frequências e planos de voos internacionais, atendendo a esse público de alta renda. Para alguns agentes do mercado imobiliário, o cenário atualtambém representa uma oportunidade: Gaston Aybar afirmou ter concluído 40% mais negócios no primeiro semestre, graças ao fortalecimento do peso argentino, juros mais baixos e programas de regularização fiscal promovidos pelo governo de Milei.

Contradições na economia argentina

Por outro lado, essa recuperação aparente não atende as expectativas da maioria. Restaurantes, hotéis e comércios populares continuam com níveis de consumo baixos. Segundo dados de 2025, a ocupação hoteleira permanece abaixo do que era registrado em anos anteriores, e o número de lojas fechadas só aumenta. Os preços nos supermercados, por sua vez, ainda permanecem altos, apesar de sinais de desaceleração na inflação.

Especialistas explicam que as políticas de câmbio e liberalização comercial adotadas por Milei têm impulsionado a valorização do peso no mercado paralelo, beneficiando os consumidores de alta renda, mas tornando a vida mais difícil aos que possuem renda fixa ou dependem do mercado interno mais vulnerável. O consenso é de que essas medidas favorecem o consumo de bens de durabilidade, mas não combatem as dificuldades enfrentadas pelas classes mais populares.

Perspectivas econômicas e políticas

Economistas reduziram as previsões de crescimento para cerca de 5% em 2025, após duas anos de contração. Ainda assim, o cenário permanece incerto, com previsão de retomada moderada, enquanto o governo tenta manter a popularidade de Milei e sua agenda de ajustes fiscais. A eleição parlamentar de meio de mandato, marcada para os próximos meses, deve refletir o sentimento popular diante da economia polarizada.

Na política, o país vive uma tensão constante entre o discurso de austeridade e as demandas sociais mais urgentes, fatos que alimentam o clima de incerteza e descontentamento entre as massas, enquanto setores de luxo continuam a prosperar.

Conclusão

A evidência de uma economia desequilibrada na Argentina revela que a aparente bonança de alguns setores de alta renda mascara o verdadeiro sentimento de insatisfação popular e insegurança econômica expansive. Os próximos meses serão decisivos para entender se esse modelo de crescimento beneficiará a maioria ou aprofundará ainda mais a desigualdade social.

Fonte: Valor Econômico

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