Higienópolis: o risco de uma torre gigante no casarão da Itacolomi
By Iris Andrade
Polêmica em Higienópolis: novo edifício gera críticas por seu design e localização
Um novo empreendimento localizado na esquina das ruas Piauí e Itacolomi, no bairro Higienópolis, tem causado forte repercussão na cidade. Projetado pela incorporadora Helbor, a construção foi apelidada de “Godzilla” por moradores e especialistas devido à sua aparência pesada, genérica e cheia de fios de LED na fachada.
Apesar de oferecer quatro vagas de garagem por apartamento, uma característica incomum na região, o edifício enfrenta questionamentos quanto à sua estética e compatibilidade com o entorno. A reação nas redes sociais foi rápida e contundente, com comentários que criticam desde a escolha do projeto até o impacto na vizinhança.
“Um prédio da Vila Olímpia não cabe neste bairro.”
“Não dá pra cancelar e refazer?”
“Tá em tempo de rever esse projeto e contratar um escritório de arquitetura capacitado.”
Além disso, uma análise mais aprofundada aponta que o projeto não condiz com a qualidade arquitetônica esperada para uma localização tão valorizada. Moradores e entusiastas de arquitetura comentaram que a fachada parece pouco pensada, evidenciando um aparente despreparo técnico da construtora.
Contexto histórico e localização do imóvel
O terreno onde está sendo construído o edifício fica nos fundos de um antigo palacete tombado, que pertenceu à família do ex-presidente Rodrigues Alves. Este palacete, de estilo art nouveau, teve um passado marcado pela sua utilização como carceragem do DOPS durante a ditadura militar, além de servir como prisão do juiz Lalau.
Depois de anos vazios e sob administração do INSS, o imóvel foi leiloado em 2018 por R$ 26 milhões. Como é comum em leilões públicos no Brasil, não houve cláusulas específicas que condicionassem a construção futura na área, o que abriu espaço para a edificação de um prédio de alto impacto visual próximo ao patrimônio tombado.
Expectativas versus realidade na arquitetura
Há uma expectativa de que projetos em bairros de alto padrão tenham um cuidado especial com a estética e integração ao entorno. No entanto, a nova construção evidencia o contrário. Os proprietários e investidores que adquiriram unidades esperam um retorno financeiro a longo prazo, acreditando que o bairro se valorizará e continuará atraente para novas gerações.
Porém, o atual projeto, apoiado por uma construtora com histórico de construções genéricas e soluções pouco inovadoras, parece distante de ideias que valorizam o legado arquitetônico da região. Especialistas lembram que, em outras épocas, nomes como Guido Gregorini foram responsáveis por projetos que realmente elevaram o valor do bairro.
Resposta da incorporadora e possíveis mudanças
Diante de uma forte reação negativa, a Helbor optou por restringir comentários nas plataformas de divulgação e aumentou o investimento em publicidade paga. A esperança dos críticos é que, diante da pressão pública, a empresa seja incentivada a rever o projeto, buscando arquitetos de maior repertório para repensar a edificação.
De acordo com especialistas, investir na qualidade arquitetônica pode acelerar o valor de mercado imobiliário, especialmente em bairros históricos como Higienópolis. Uma mudança de padrão poderia ajudar o bairro a manter sua tradição de valorização e atrair uma clientela mais exigente, que deseja morar em um local com identidade e bom gosto ao redor.
Quem projeta ou assina o prédio?
No material de divulgação do edifício, não há informações sobre o autor do projeto, que é atribuído a decoradores renomados, mas que pouco acrescentam ao conceito de arquitetura. A ausência de uma assinatura oficial reforça a impressão de que a construtora não priorizou a qualidade estética na concepção do prédio.
A crise de imagem e o futuro do projeto
Na tentativa de minimizar as críticas, a Helbor fechou os canais de comentários e aumentou o impulsionamento de posts nas redes sociais. Alguns analistas acreditam que, talvez, a construtora seja obrigada a reformular o projeto, usando arquitetos mais calibrosos que possam produzir uma obra mais compatível com o bairro.
Historicamente, outras incorporadoras que investiram em projetos de maior qualidade no bairro obtiveram resultados positivos. Para o setor, o desafio é grande: oferecer edifícios que respeitem e aprimorem a região, ao invés de desafiar sua identidade com soluções superficiais ou genéricas.
Um panorama do mercado e os exemplos históricos
O mercado imobiliário de Higienópolis é pouco receptivo a soluções arquitetônicas mal planejadas. São exemplos históricos de sucesso projetos assinados por nomes como Isay Weinfeld e Norman Foster, que elevam o padrão e o valor do bairro. A aposta é que, num futuro próximo, os proprietários relativizarão os prejuízos atuais e buscarão melhorias na estética das edificações.
Curiosamente, a discussão atual reflete uma mudança de mentalidade na capital paulista, onde o respeito ao patrimônio e a qualidade do projeto têm ganhado mais espaço. É uma lição para outros bairros nobres de São Paulo, que enfrentam problemas semelhantes com edifícios de baixa qualidade e pouco cuidado com o contexto urbano.
Fontes: Análise de mercado, moradores locais e especialistas em arquitetura