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Descubra por que o yuan não ameaça o dólar

By Iris Andrade

Por que o yuan cresce, mas ainda não desbanca o dólar

O yuan vem ganhando espaço no comércio mundial, mas especialistas destacam que o dólar ainda domina, com pouca evidência de uma substituição rápida. Dados indicam que o yuan já é utilizado em parte relevante das transações com a China, mas o peso do dólar nas reservas e nas operações globais continua superior.

Como o yuan avançou no comércio global

Quase um terço do comércio exterior da China é feito em yuan, e a participação do yuan chega a 53% quando se consideram todas as transações internacionais envolvendo o país, incluindo compras de títulos e investimentos. Em 2023, o yuan já havia ultrapassado o comércio em dólar pela primeira vez nesses fluxos, segundo autoridades chinesas.

Em 2024, houve um marco importante: o yuan superou brevemente o euro como segunda moeda mais usada no financiamento do comércio global, ainda que responda por apenas 5,8% do mercado, com o dólar respondendo pela maior fatia, segundo a Swift.

Além disso, a participação do yuan nas reservas cambiais globais atingiu 2,4% no segundo trimestre deste ano, conforme dados do FMI. Esses números destacam uma tendência de aumento, mas sem indicação de desdolarização rápida.

Como Pequim busca internacionalizar o yuan sem abrir mão do controle

A China vem adotando uma abordagem pragmática: ampliar gradualmente o uso do yuan no comércio internacional, enquanto mantém controles sobre o câmbio. A ideia é levar o yuan para a economia real, não transformar a moeda em um instrumento financeiro livre.

Analistas ressaltam que, mesmo com o avanço, Pequim não pretende tornar o yuan uma moeda de livre circulação para fluxos de capital. A lógica de comando e controle permanece, o que limita o caminho para uma dominância financeira global do yuan.

O papel do yuan na infraestrutura financeira internacional

  • Pagamentos internacionais: a China investe em uma arquitetura paralela ao Swift, o CIPS (Sistema de Pagamentos Interbancários Transfronteiriços da China), para liquidar transações em yuan.
  • Centros de compensação: em centros financeiros como Singapura, Londres e Frankfurt, foram abertos centros de compensação em yuan.
  • Moeda digital: o yuan digital está sendo testado e deve acelerar pagamentos internacionais, reduzindo a dependência de bancos ocidentais.
  • Acordos de swap: mais de 50 países assinaram acordos de swap cambial, permitindo que bancos centrais troquem suas moedas locais por yuan, facilitando negociações com nações sujeitas a sanções ou com forte comércio com a China.

Crédito externo e a expansão do uso do yuan

Outra frente é o crédito externo, que integra o yuan nas dívidas de países em desenvolvimento. As participações de bancos chineses em yuan em empréstimos, depósitos e títulos cresceram exponencialmente nos últimos cinco anos, chegando a cerca de 480 bilhões de dólares, segundo o Financial Times. Isso representa uma fatia crescente do crédito externo chinês, estimado em torno de 1 trilhão de dólares por meio da Nova Rota da Seda.

Com taxas de juros do yuan entre 200 e 300 pontos-base abaixo das do dólar, países como Quênia, Angola e Etiópia converteram dívidas antigas em dólar para yuan neste período, enquanto Indonésia, Eslovênia e Cazaquistão passaram a emitir títulos na moeda chinesa.

O que pode acelerar ou frear o caminho do yuan

Especialistas destacam que a evolução do yuan depende de fatores externos e internos. Do lado externo, a China tem mostrado força para modificar acordos comerciais e de financiamento em yuan, especialmente com commodities e energia. Do lado interno, porém, o consumo doméstico ainda enfrenta fragilidades, devido a uma desaceleração do mercado imobiliário e a uma produção que, por vezes, excede a demanda interna. Tais desequilíbrios limitam o impulso que a internacionalização do yuan pode ganhar no curto prazo.

Pesquisadores destacam que o objetivo da China não é a desdolarização imediata, mas a regionalização do yuan no Sul Global, aumentando seu papel nos fluxos comerciais de parceiros estratégicos e fortalecendo a posição da moeda em setores-chave, como energia e matérias-primas.

Visões de especialistas

Para Miguel Otero-Iglesias, do Instituto Real Elcano, a China quer internacionalizar o yuan para o comércio e para a economia real, não para transformar a moeda em um ativo financeiro global. Já Dan Wang, da Eurasia Group, aponta que a estratégia é regionalizar o yuan no Sul Global, não derrubar o dólar da posição de reserva.

Perspectivas futuras

Enquanto o yuan ganha espaço, a dominância do dólar permanece firme em várias frentes, incluindo reservas globais, transações financeiras complexas e liquidez global. O avanço do yuan dependerá de parcerias comerciais mais confiáveis, maior transparência institucional e uma economia chinesa mais estável e robusta, capaz de sustentar acordos em yuan de forma ampla.

Autor: Nik Martin

Fonte: UOL Notícias

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