Desaceleração do PIB brasileiro: por quê?
By Iris Andrade
PIB do Brasil desacelera no 2º trimestre e aponta arrefecimento da atividade
Dados do Produto Interno Bruto (PIB) mostraram que o Brasil cresceu 0,4% entre abril e junho, após avançar 1,4% no primeiro trimestre. O resultado ficou dentro das expectativas do mercado, que esperava expansão entre 0,14% e 0,5% na comparação trimestral.
Especialistas traduzem a queda no ímpeto econômico como reflexo de juros elevados e de cenários político e internacional incertos. O banco central manteve a taxa Selic em 15% ao ano para conter a inflação, o que contribui para frear crédito, consumo e novos investimentos.
Entre as perspectivas para 2025, as previsões foram revisadas, mas permaneçam em terreno de crescimento. O Ministério da Fazenda projeta alta de 2,5%; a Fiesp aponta 2,4%; Goldman Sachs, 2,3%; Santander, 2%; e UBS, 1,9%. Em 2024, o Brasil registrou crescimento de 3,4%.
Desempenho por setores
O setor industrial avançou 0,5% no segundo trimestre, após ficar praticamente estagnado no início do ano. A construção civil mostrou sinais de desaceleração, mesmo com programas governamentais de apoio e linhas de financiamento para infraestrutura, enquanto a indústria enfrentou impactos do ambiente externo, incluindo tarifas sobre produtos norte-americanos.
O setor de serviços subiu 0,6% no trimestre, puxado pela demanda de empresas e pela melhoria do mercado de trabalho. Já o varejo avançou pouco, com estagnação em alguns pontos sensíveis ao crédito, refletindo o aperto monetário.
No agregado, a formação bruta de capital fixo caiu 2,2% no trimestre, sinalizando menor investimento e contribuindo para o tom mais contido da atividade econômica no curto prazo.
No campo do agro, houve alta expressiva de 10,1% na comparação com o segundo trimestre de 2024, mantendo o setor como pilar de resistência num cenário de juros elevados.
Como o mercado está encarando o cenário
Analistas veem o 2º semestre com viés de menor dinamismo. O economista Sérgio Vale, MB Associados, afirma que o País está deixando de crescer próximo de 3% para ficar em torno de 2%, destacando que o efeito dos juros está ganhando relevância para consumo e investimento.
Especialistas ressaltam que, apesar da desaceleração, o mercado de trabalho permanece resiliente, o que pode sustentar parte da atividade ao longo do segundo semestre, especialmente com medidas de gasto público e crédito disponível em alguns programas.
No entanto, há quem aponte para riscos adicionais: endividamento das famílias, incertezas fiscais e volatilidade externa podem ampliar o aperto sobre a atividade. O Santander destaca cenários de baixo crescimento para o restante do ano, enquanto o Banco Pine mantém projeção próxima de 2,3% para 2025, com crescimento quase nulo na segunda metade do ano.
Implicações para políticas públicas e investimentos
O cenário de maior custo do crédito tende a reduzir investimentos, especialmente em setores sensíveis a financiamento de máquinas e obras. Economistas apontam que a Selic elevada, combinada a condições de crédito menos favoráveis, continuará limitando o ritmo do investimento em 2025.
O desempenho do PIB no 2º trimestre reforça a visão de um 2025 com crescimento mais baixo do que o inicialmente esperado, exigindo ajustes de políticas fiscais e possíveis medidas de estímulo para sustentar a atividade sem desvirar o equilíbrio fiscal.
Conclusão provisória: o Brasil passa por um período de arrefecimento da atividade, com efeitos mais perceptíveis em áreas dependentes de crédito, enquanto o mercado de trabalho e algumas ações públicas permanecem como pilares de apoio ao consumo e ao emprego.
Fonte: Exame