Skip to content

De Narcos a bancarização: o surpreendente novo passo dos traficantes

By Iris Andrade

Autoridades revelam esquema de lavagem de dinheiro do PCC por meio de fintechs e fundos de investimento

Recentemente, a Receita Federal identificou uma estratégia sofisticada utilizada pelo Primeiro Comando da Capital (PCC) para disfarçar recursos ilegais. Segundo informações divulgadas na quinta-feira (28), o crime organizado controla cerca de 40 fundos de investimento, com um patrimônio estimado em mais de R$ 30 bilhões, que seriam utilizados para operações ilícitas de lavagem de dinheiro.

De acordo com a superintendente da Receita em São Paulo, Marcia Meng, a operação chamada Carbono Oculto revelou que essas empresas financeiras de tecnologia, conhecidas como fintechs, vêm sendo usadas para inserir dinheiro sujo no sistema financeiro formal, sem prestação de contas às autoridades. Ao contrário dos bancos tradicionais, essas fintechs não disponibilizam informações transparentes sobre seus reais proprietários, facilitando a ocultação de origem ilícita.

“A atuação dessas fintechs tem permitido que o dinheiro criminoso entre na economia oficial de maneira mais eficiente, dificultando o trabalho de fiscalização”, afirmou Meng.

Ela destaca ainda que o esquema envolve a movimentação de recursos por meio de fundos imobiliários, que não apenas escondem a identidade dos beneficiários, mas também fazem o capital gerar rendimento, um diferencial em relação às antigas práticas de enterramento de dinheiro, como retratado na série “Narcos”.

Funcionamento do esquema e o risco para a sociedade

Segundo a especialista, as organizações criminosas usam esses fundos e fintechs para criar redes complexas de camadas de propriedade, muitas vezes envolvendo fundos fechados com um único cotista, que por sua vez são ligados a outros fundos, dificultando rastreamento e fiscalização.

“Quando esse dinheiro é movimentado dentro do sistema financeiro, torna-se quase impossível diferenciar recursos legítimos de ilícitos, especialmente porque muitas operações passaram a ser feitas por empresas que não têm obrigações claras de transparência”, explicou Meng.

Ela reforçou que há uma preocupação crescente com os riscos que essa proteção regulatória oferece à sociedade, uma vez que pessoas comuns podem ter seus bens bloqueados por estarem relacionados, mesmo que de forma indireta, a fundos utilizados pelo crime organizado. Essa brecha, segundo ela, amplia o perigo não apenas para o crime, mas para toda a comunidade.

Uso de fundos imobiliários e práticas de lavagem

A investigação também apontou que esses fundos imobiliários ocultam a verdadeira propriedade de bens adquiridos com dinheiro ilegal. Além de protegerem o patrimônio, esses fundos rendem, possibilitando a reinvestimento de capitais ilícitos no mercado financeiro, movimento semelhante ao que ocorreu na história retratada na série “Narcos”, onde traficantes enterravam dinheiro que ia se perder com a umidade, ao contrário da bancarização atual, que coloca o dinheiro no mercado para gerar rendimentos.

Investigações e controle de bens ilícitos

As ações conduzidas pela força-tarefa apontaram que o PCC controla pelo menos 40 fundos de investimento, que adquiriram bens como um terminal portuário, usinas de álcool, veículos e imóveis de alto valor, incluindo fazendas e uma residência de luxo em Trancoso, na Bahia. Entre 2020 e 2024, essa movimentação financeira ilegal chegou a R$ 52 bilhões.

Durante as operações, realizadas em oito estados, diversas empresas e indivíduos suspeitos de crimes contra a economia, lavagem de dinheiro, alteração de combustíveis e fraudes fiscais tiveram mandados de busca, apreensão e prisão cumpridos por aproximadamente 1.400 agentes federais e estaduais.

Estratégias criminosas e impactos na economia

Segundo as autoridades, o esquema não envolve apenas o transporte clandestino de combustíveis, mas também a importação de produtos como nafta, diesel e hidrocarbonetos, utilizados na fabricação de combustíveis adulterados. Grande parte desses produtos circula em uma vasta rede de postos de combustíveis, em diversos estados do país.

“As entidades também eram usadas para lavar dinheiro por meio de operações em lojas de conveniência, padarias, e outras atividades comerciais. Os postos de combustíveis, que movimentaram R$ 10 bilhões em importação de combustíveis de 2020 a 2024, representam um grande risco à arrecadação fiscal,” alertou a Receita Federal.

Principais organizações e controles financeiros

  • Grupo Aster/Copape: responsável por usinas, distribuidoras e postos envolvidos na atividade criminosa;
  • BK Bank: fintech que movimenta valores por meio de contas bolsão não rastreáveis;
  • Reag: fundo de investimento utilizado para compra de bens e blindagem patrimonial.

Os fundos controlados pelo PCC eram utilizados como estrutura de ocultação, atuando como camadas de confiança para manipular o sistema financeiro e adquirir bens de alto valor, como fazendas, veículos e imóveis, muitos já bloqueados pelas autoridades.

O papel da força-tarefa

Composta por membros do Ministério Público e da Polícia Federal, a operação envolveu o cumprimento de mandados em vários estados com o objetivo de desarticular toda a estrutura do crime organizado nas operações financeiras ilegais. Os órgãos participantes reforçam a importância da cooperação para combater a inserção do PCC no mercado financeiro e a lavagem de capitais.

“Nossa maior preocupação é garantir que esses recursos de origem ilícita não estejam mais infiltrados na economia legal, protegendo a sociedade de prejuízos maiores,” afirmou Robinson Barreirinhas, secretário especial da Receita Federal.

A operação reforça o combate de órgãos públicos ao uso de mecanismos financeiros para atividades ilícitas, alertando para a necessidade de maior fiscalização e regulamentação no setor de fintechs e fundos de investimento.

Fonte:

Receita Federal

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *