De herdeira a líder de ESG que quer transformar o Brasil
By Iris Andrade
Empresária de origem privilegiada transforma sua trajetória em movimento pelo impacto social no Brasil
Após décadas inserida em um ambiente de conforto financeiro devido ao patrimônio familiar no setor de construção civil, Ticiana Rolim Queiroz decidiu reinventar sua carreira e dedicar-se ao empreendedorismo social. Com 43 anos e mãe de três filhos, ela abandonou o mercado imobiliário tradicional para atuar de forma mais engajada na transformação social do Nordeste.
Da herança ao ativismo: uma mudança de valores
Filha de uma família há mais de cem anos no ramo de construção, Ticiana cresceu sob uma vida de privilégios. Segunda ela, foi criada num “contexto de privilégio”, inexistente na maioria das realidades brasileiras. Seu desejo de participar ativamente dos negócios familiares foi inicialmente rejeitado por um familiar, que afirmou: “Os homens da família entram na empresa, mas você terá dinheiro para sempre.”
Essa limitação a motivou a provar seu valor, marcando sua entrada na C-Rolim Imobiliária, uma referência na cidade de Fortaleza. Durante 21 anos, trabalhou para conquistar seu espaço, muitas vezes sentindo a necessidade de se fortalecer emocionalmente frente a um ambiente predominantemente masculino.
Reconexão com seus valores e o despertar para o impacto social
A virada veio em 2013, após perceber o impacto negativo que o ritmo acelerado de sua carreira tinha sobre sua saúde física e emocional. Em busca de equilíbrio, iniciou um processo terapêutico e começou a refletir sobre seus valores e propósito.
Seu envolvimento com o empreendedorismo social teve início em 2017, com a fundação da organização sem fins lucrativos Somos Um, inspirada na obra do Nobel Muhammad Yunus. Através dela, Ticiana busca promover o acesso ao crédito para mulheres vulneráveis, com foco em mulheres negras, além de apoiar iniciativas que promovem inclusão social e o combate à pobreza.
De dinheiro a impacto: uma nova visão de economia
Um dos momentos mais marcantes de sua trajetória foi a decisão de trocar o objetivo de acumular riqueza pelo propósito de gerar impacto social. “Decidi não acumular mais dinheiro e Voltei minha energia ao voluntariado, investindo em empreendimentos que realmente transformam vidas”, relata. Essa postura levou-a a deixar oficialmente a empresa familiar em 2022, distribuindo sua parte para o irmão e focando na “nova economia”.
O papel de Ticiana no Nordeste e o projeto Conexão ODS
Para ampliar sua atuação, Ticiana criou a Conexão ODS, uma iniciativa que organiza eventos em parceria com o Pacto Global Brasil, com o objetivo de engajar empresários na implementação da Agenda 2030. O projeto busca ir além do público do Sul e Sudeste, promovendo uma conexão direta com as especificidades de cada região nordestina.
Em entrevista, ela explica: “Queremos que o impacto seja mais do que uma palestra, uma experiência que toca o coração, porque mudanças que vêm do sentimento são mais duradouras”. A primeira edição, realizada em Fortaleza com 800 participantes, foi um sucesso, levando à expansão para outros estados, com a próxima prevista para Natal, em agosto.
Impacto regional e inovação social
A regionalização do evento é vista por Ticiana como uma estratégia essencial. Ela destaca que diferentes estados do Nordeste têm particularidades, mas também muitas semelhanças, especialmente relacionados aos desafios de seca e pobreza. “O Nordeste precisa se unir, pois cada lugar tem soluções que podem dar sucesso em outras áreas”, afirma.
Ela também reforça a importância de medir resultados a longo prazo. Segundo ela, o Conexão ODS é como plantar sementes: algumas florescem rapidamente, outras levam mais tempo, mas o objetivo maior é criar um movimento perene de transformação social.
Destaques do setor ESG e avanços sociais
Entre as iniciativas reconhecidas no Brasil, destacam-se ações voltadas à sustentabilidade, inclusão de mulheres negras em programas de crédito e investimentos em empresas de impacto. Em 2025, diversas empresas brasileiras receberam destaque na premiação Melhores do ESG, que aponta as organizações que lideram práticas de responsabilidade social, ambiental e de governança.
Contexto de desafios globais e regionais
No cenário internacional, o Brasil tem enfrentado dificuldades para gerenciar desastres naturais, acumulando prejuízos de bilhões de reais com enchentes, secas e tempestades. Além disso, a crise com a realização da COP30 agravou a preocupação com a implementação de ações sustentáveis no país, diante de custos elevados e dificuldades logísticas.
Outro aspecto relevante é o avanço de projetos de energia limpa, como o maior parque eólico offshore do mundo, na Escócia, previsto para gerar energia para milhões de residências. No Brasil, o prazo de até 11 de agosto para resolver a crise de hospedagem na realização da cúpula do clima reforça o desafio do país em atender às demandas de sustentabilidade internacional.
Perspectivas e continuidade do movimento social
Ticiana reforça a importância de ações de impacto que envolvem toda a sociedade, especialmente as comunidades locais, destacando que “não se trata de uma ação pontual, mas de uma mudança de paradigma”. Sua trajetória revela como a transformação pessoal e social podem estar interligadas, impulsionando uma nova fase na responsabilidade empresarial brasileira.
Fonte: Exame