COP sem público: o que está em jogo
By Iris Andrade
Belém recebe COP30 com o desafio de manter a participação popular
No dia 10 de novembro de 2025, Belém do Pará sediará a 30ª Conferência das Nações Unidas sobre Mudanças Climáticas, a COP30. Faltando pouco mais de um mês para a abertura, a expectativa é de que o encontro tenha um peso histórico ao colocar a Amazônia no centro das negociações globais.
A escolha do território amazônico não é apenas simbólica: o debate ocorre no coração de uma região essencial para a regulação climática mundial e que abriga povos historicamente resistentes a modelos de exploração ambiental. O objetivo declarado é criar uma agenda duradoura que conecte governo, ciência e movimentos populares, indo além de metas apresentadas e negociadas apenas entre Estados.
Risco de ser uma conferência sem voz popular
Especialistas apontam que, sem a participação efetiva de comunidades indígenas, povos quilombolas, comunidades ribeirinhas, moradores de periferias urbanas e jovens, a COP30 corre o risco de se tornar um ritual diplomático desconectado da realidade da Amazônia. A liderança internacional terá de provar que não se trata apenas de diplomacia de cúpula, mas de inclusão real das vozes que enfrentam a crise climática no cotidiano.
Contradições já presentes nos preparativos
Entre as evidências de contradição, destacam-se paralisações: a greve de trabalhadores da construção civil interrompeu obras ligadas à disposição de “Vila dos Líderes”, sinalizando que o evento não pode ocorrer às custas da precarização de quem atua na sua montagem. Além disso, a crise de hospedagem em Belém eleva o custo de hotéis, dificultando a chegada não apenas de delegações estrangeiras de países menos favorecidos, mas de brasileiros interessados em acompanhar a conferência.
Há quem tema que a COP30 acabe sendo lembrada como uma cúpula restrita àqueles que podem pagar, contradizendo os valores de hospitalidade e diversidade associadas à Amazônia. A praça central do debate internacional, nesse cenário, estaria em risco de perder sua função de espaço inclusivo e plural.
Justiça climática em foco
Em meio a esse cenário, cresce a pressão por justiça climática. Mais de 240 organizações já alertaram que enfrentar a emergência ambiental requer reconhecer desigualdades históricas e contemporâneas. A ideia é que a transição ecológica garanta dignidade prática: acesso à saúde, proteção contra enchentes e secas, água potável, respeito ao território e à cultura local, sem ampliar injustiças existentes.
Para reforçar essa visão, o pensador quilombola Nêgo Bispo ressaltou que “mesmo que queimem os corpos, não queimam a ancestralidade”. A mensagem enfatiza a importância de reconhecer memória, oralidade e saberes que sustentam modos de vida coletivos, defendendo uma abordagem de cuidado com a floresta e com os povos como parte central da construção do futuro.
Voos mais amplos: governança climática e participação
A União Europeia tem anunciado metas de redução de emissões, mas a crítica persiste: ainda há um descompasso entre responsabilidades históricas e compromissos práticos. Enquanto isso, o Brasil, como anfitrião, defende a criação de estruturas de governança climática global que envolvam vozes plurais de fora das salas de negociação. O desafio é evitar que a COP se torne apenas uma diplomacia de alto nível, propondo mecanismos que incorporem quem vive a crise no cotidiano e nas margens do sistema.
O interesse público no Brasil tem crescido, com pesquisas e buscas sobre a COP30 aumentando expressivamente; no entanto, o legado desejado não é apenas o brilho de uma conferência, mas a implantação de infraestrutura para a Amazônia, o respeito à dignidade de trabalhadores e comunidades, o reconhecimento dos povos da floresta como protagonistas e a posição do Brasil como referência de compromisso climático com justiça social.
O que está em jogo para o futuro da Amazônia
Se a COP30 conseguir unir compromissos globais à defesa da Amazônia e de seus povos, poderá ser lembrada como um marco histórico. Caso contrário, poderá ficar registrada como mais uma conferência que transformou a floresta apenas em cenário, sem ouvir sua voz. O desafio é claro: a Amazônia precisa ser tomada como sujeito do debate, não apenas como paisagem.
Que esse futuro seja guiado pela sabedoria de lideranças locais, reforçando que a região não é apenas um espaço de exploração, mas um horizonte de convivência sustentável e justiça para todas as comunidades que dependem dela.
E que a COP30 saiba ouvir essa lição, pois dela depende não apenas a Amazônia, mas o destino comum da humanidade.
Este texto não representa, necessariamente, a opinião de CartaCapital.
Fonte: CartaCapital