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Compra de Imóveis na Argentina Revela Sala Secreta e Maleta de Dólares

By Iris Andrade

Na Argentina, as negociações de compra de imóveis ainda seguem um padrão bastante tradicional, embora exista um crescimento nos financiamentos bancários. Apesar disso, a maioria das transações é realizada em dinheiro vivo, predominantemente em dólares, devido à desconfiança na moeda local, o peso argentino, que sofre constantes desvalorizações. Muitos interessados preferem conservar seus recursos na divisa norte-americana, que se tornou a principal opção de poupança no país.

As imobiliárias em Buenos Aires frequentemente anunciam imóveis à venda em dólares e alugam em pesos, com contratos de locação também podendo ser negociados em moeda estrangeira. Em muitas negociações, o proprietário exige que a operação seja feita em salas reservadas de bancos ou em escritórios privados, com o tabelião se deslocando às instituições para assinatura dos documentos. Uma estratégia comum é que o vendedor aluga cofres específicos no banco onde a escritura será registrada, facilitando toda a operação.

O trauma do confisco de dólares em 2001 ainda influencia o comportamento dos argentinos. Muitos guardam seu dinheiro em casa, escondendo-o em objetos ou fundos falsos de móveis, por exemplo. Para quem deseja adquirir imóveis sem guardar grandes quantidades de dinheiro em casa ou arriscar carregar dólares, existem estratégias como transferir valores aos poucos para contas bancárias, depositar em contas correntes e transferir ao proprietário de modo parcelado.

Recentemente, o governo de Javier Milei lançou um programa para incentivar a retirada de dólares do colchão, permitindo a utilização de até US$ 200 mil sem a necessidade de comprovar a origem dos recursos, o que antes era obrigatório. Essa iniciativa visa aumentar a circulação de divisas no sistema financeiro e reduzir as reservas internacionais, que vêm sendo consumidas devido à alta demanda por câmbio para pagamentos e compras.

O mercado imobiliário argentino vem apresentando crescimento. Em abril, o número de escrituras de compra e venda subiu 50,5% em relação ao mesmo mês de 2024, atingindo 5.471 registros na capital. Além disso, as transações tiveram aumento de 160,4% no valor total negociado. Segundo especialistas, esse aquecimento se deve ao fim das restrições na compra de dólares por pessoas físicas e às medidas de combate à lavagem de dinheiro, que facilitaram o mercado.

De acordo com a análise de Germán Gomez Picasso, fundador da publicação especializada “Reporte Inmobiliario”, o projeto de retirar dólares do colchão pode não ser o principal motor do mercado imobiliário. Segundo ele, outros fatores, como a queda nos preços dos imóveis relativos aos últimos anos, o fim da lei de locações que restringia contratos de até três anos e as linhas de crédito imobiliário cada vez mais acessíveis, também estão impulsionando a recuperação.

Atualmente, é possível obter financiamentos de até 80% do valor do imóvel, embora o acesso ao crédito ainda seja limitado a certos perfis de compradores. Em março, aproximadamente 21% das vendas na Capital foram realizadas por meio de financiamento, nível semelhante ao registrado antes da crise de 2018, e muito superior aos 3% de um ano atrás. Essa alta na concessão de créditos é impulsionada pela demanda de famílias que desejam sair do aluguel e investir em imóveis, especialmente com a inflação controlada.

Por outro lado, a maioria das negociações continua sendo feita em dólares e dinheiro vivo, uma forma de evitar dificuldades com o sistema bancário ou a desconfiança nas instituições financeiras. Mesmo assim, o crescimento dos financiamentos e a possibilidade de vender pesos no mercado oficial, permitindo o depósito e a transferência de valores, ajudam a ampliar esse mercado de forma gradual.

A valorização dos imóveis na cidade de Buenos Aires também reflete esse cenário. Em maio, o metro quadrado usado teve uma alta de 8%, atingindo US$ 1.670, embora ainda esteja 29% abaixo do pico de 2019. Com uma inflação mais baixa, espera-se que o mercado imobiliário continue se recuperando, com mais famílias buscando financiamentos e negociando imóveis de forma mais segura e planejada.

Fonte: Folha de S.Paulo

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