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Cobogó, invenção pernambucana que refresca

By Iris Andrade

Símbolo da arquitetura moderna brasileira, cobogó volta a ganhar valor entre arquitetos

O cobogó, elemento vazado criado no Nordeste do Brasil, voltou a figurar entre os temas quentes da arquitetura global após uma cobertura internacional que ressaltou sua relação com o clima, a ventilação e a estética. Desenvolvido no final dos anos 1920, em Recife, o item une design, funcionalidade e sustentabilidade, surgindo como uma resposta inteligente para enfrentar o calor extremo que atinge o país e outras regiões do mundo.

Raízes pernambucanas e identidade nordestina

Segundo a matéria que ganhou repercussão, o cobogó foi patenteado em 1929 por três engenheiros cujas iniciais deram origem ao nome da peça: Amadeu Oliveira Coimbra, Ernest August Boeckmann e Antônio de Góis. Originalmente produzido como bloco pré-fabricado de cimento, o objetivo era reduzir custos e acelerar obras, sem prever o impacto estético e climático que haveria de acompanhar o movimento da arquitetura moderna.

O primeiro uso marcante aparece na caixa d’água de Olinda, na cabeceira mais alta do sítio histórico, onde a fachada com cobogós ajuda a reduzir o calor e a promover a circulação de ar. A técnica ganhou força no Recife e, depois, se disseminou para outras cidades como Rio de Janeiro, Brasília e São Paulo, consolidando-se como um símbolo da arquitetura modernista brasileira.

Soluções locais para um clima global

Em um contexto de mudanças climáticas e ondas de calor — com recordes de temperatura que superam os 40°C — o cobogó volta a ser valorizado por arquitetos e pesquisadores. Guilah Naslavsky, professora da Universidade Federal de Pernambuco, descreve o cobogó como “uma solução bioclimática que une sustentabilidade e poesia da arquitetura brasileira”, capaz de filtrar a luz, permitir ventilação natural e criar uma zona de transição que resfria os ambientes sem depender de ar-condicionado.

Para o arquiteto Cristiano Borba, doutor pela UFPE, o cobogó representa um “caso clássico de funcionalidade que virou identidade visual popular”, especialmente no Nordeste, onde passou a fazer parte de varandas, jardins e muros de casas.

Do Recife para o mundo

O estilo vazado característico das fachadas pernambucanas influenciou construções icônicas do modernismo, incluindo os desenhos de Oscar Niemeyer em Brasília, a quem Borba atribui o papel de “filhote de arquitetos nordestinos”. Com o tempo, o cobogó deixou de ser apenas um elemento construtivo e passou a encarnar a brasilidade, associada à luminosidade, ventilação e memória afetiva.

Atualmente, empresas e designers nordestinos, como a Obi, com atuação em João Pessoa, resgatam o uso do cobogó em projetos residenciais e corporativos. “É um ambiente que respira”, resume o empresário João Gomes Neto, destacando o retorno de soluções térmicas e sustentáveis no pós-pandemia.

Releitura e futuro sustentável

Na Bienal Internacional de Arquitetura de São Paulo, o cobogó ganhou uma versão sustentável, criada a partir de resíduos da construção civil, segundo o professor Clevio Rabelo, da UFC. Pesquisas da UFRJ também apontam o potencial da peça para melhorar a ventilação em favelas, sugerindo que o elemento criado no Nordeste pode inspirar soluções urbanas em todo o país.

À medida que fachadas de vidro e concreto ainda predominam em cidades quentes, especialistas defendem que olhar para o passado pode apontar caminhos para o futuro. “Se não tivéssemos abandonado tradições como o cobogó, hoje estaríamos menos dependentes do ar-condicionado”, afirma Naslavsky.

Cobogó em números e curiosidades

Aspeto Detalhe
Ano da patente 1929
Criadores Amadeu Coimbra, Ernest Boeckmann e Antônio de Góis
Origem do nome Junção das iniciais “Co-Bo-Gó”
Primeiro uso marcante Caixa-d’água de Olinda (PE)
Função principal Ventilação, proteção solar e estética
Material original Cimento pré-fabricado
Tendência atual Releitura sustentável e conforto térmico

Fonte: BBC de Londres

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