Casa de Lelé abandonada no Lago Sul mistério
By Iris Andrade
Casa modernista projetada por Lelé está abandonada no Lago Sul
A Residência César Prates, obra assinada por João Filgueiras Lima—conhecido como Lelé—está há mais de uma década em estado de abandono na QL 8 do Lago Sul. A casa, considerada patrimônio de valor histórico e urbanístico, pertence à Embaixada da África do Sul e é um dos marcos da arquitetura brasileira desenvolvidos pelo renomado arquiteto nos anos 1960.
História e traços do projeto
Projetada em 1961, a residência marca a primeira casa de Lelé em Brasília, encomendação de César Prates, amigo e assessor do então presidente JK. O arquiteto ficou conhecido por incorporar os chamados sheds, aberturas que favorecem iluminação e ventilação naturais, além de integrar espaços internos e externos. Nas estruturas, destacavam-se materiais aparentes como pedra bruta, madeira e concreto, característicos da arquitetura moderna brasileira.
O imóvel também se destacou pela pequena “jardim interior” que, no passado, garantiu iluminação difusa e ventilação cruzada em todos os ambientes.
Estado atual e impactos na vizinhança
Hoje, o que se vê é uma cena de deterioração: paredes descascadas e pichadas, alambrado derrubado, portões com buracos, telhas soltas, calhas prestes a desabar e uma piscina com problemas. O matagal que toma o espaço antes dedicado ao jardim acentua a sensação de abandono e facilita a proliferação de mosquitos, representando um problema de saúde pública para moradores próximos.
Moradores da região relatam sensação de insegurança e de desvalorização da quadra, apontando também para questões de higiene e risco sanitário nos entornos da residência.
Depoimentos de moradores, familiares de Lelé e especialistas
Adriana Filgueiras Lima, filha de Lelé e arquiteta, manifestou tristeza e pediu restauração, ressaltando que a casa merecia cuidado para preservar o legado do pai. “Lamento o estado atual. É um desrespeito ao trabalho do meu pai. Aquela casa era linda. Eu adorava ir com o meu pai visitar.”
Adalberto Vilela, arquiteto e urbanista da UnB, destacou que o imóvel oferece uma visão essencial da trajetória de Lelé, refletindo uma aimedada de valorizar materiais naturais e uma espacialidade leve. “O imóvel mostra o momento em que ele estava muito vinculado a uma vertente da arquitetura brasileira que valorizava materiais naturais e uma espacialidade leve, fluida.”
Moradora próxima, Andrea Pires Figueiredo, de 52 anos, relata transtornos diários: “Nós sentimos, diariamente, os transtornos decorrentes do abandono da casa. Temos que conviver com a falta de segurança e com os problemas sanitários.”
A advogada Ana Cristina Santana, 67 anos, reforça a preocupação com a saúde pública e a desvalorização do imóvel, citando casos de dengue e infestação de roedores provocados pelo estado de abandono. “Está causando muitos problemas para todos nós, principalmente, dengue.”
Questões legais e atuação das autoridades
A Embaixada da África do Sul foi procurada pela imprensa para esclarecer a situação. Segundo a instituição, houve contato com o Cerimonial do Itamaraty para esclarecer a situação, mas detalhes sobre planos para a residência não foram comunicados pela autoridade brasileira.
Órgãos de fiscalização da saúde do Distrito Federal destacam que não têm autorização para ingressar em território estrangeiro sem a permissão do país correspondente. A Defesa Civil também não dispõe de autorização para entrar na residência no momento.
Perspectivas para o patrimônio e propostas de restauração
Especialistas e moradores defendem que a residência, símbolo da identidade de Brasília, mereça restauração para manter suas características originais. Adriana Filgueiras Lima afirmou estar disposta a participar de um processo de restauração, para que o legado arquitetônico seja preservado, em vez de demolido. A discussão sobre preservação versus demolição permanece em pauta entre vizinhos, especialistas e representantes da embaixada.
Galeria de imagens
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Estado atual da Residência César Prates -

Detalhe da deterioração nas áreas externas
Por que esse caso importa
A casa de Lelé representa uma peça fundamental da história da arquitetura brasileira, especialmente pela expressão do modernismo brasileiro e pela valorização de materiais naturais. O abandono atual levanta dúvidas sobre a preservação do patrimônio cultural de Brasília e sobre quais caminhos são necessários para garantir a restauração ou a adequada destinação do imóvel no futuro.
Fonte: Correio Braziliense