Skip to content

Canadá: o imobiliário já não é porto seguro

By Iris Andrade

Mercado imobiliário canadense ameniza o impulso da economia, acendendo alertas sobre o crescimento

Ao longo de quase duas décadas, sempre que o Canadá enfrentava choques econômicos, o segmento de imóveis costumava sustentar o país. No momento atual, esse cenário pode estar mudando, com o mercado imobiliário recebendo o golpe de uma disputa comercial com os EUA e dificuldades para se recuperar.

A demanda por imóveis diminuiu após a maior correção de preços já registrada no país, o que despertou uma nova percepção sobre os riscos de possuir uma casa ou investir no setor. A retração chega em uma fase sensível para a economia, que já registrou contração trimestral ligada às tarifas norte-americanas e pode entrar em recessão se o quadro tarifário se manter ou se agravar.

Visão de especialistas

“Quem tem menos de 45 anos nunca viu ou precisou enfrentar uma correção tão expressiva no mercado imobiliário canadense. Isso deve servir como lição para uma geração sobre os riscos envolvidos”, afirma um economista de um dos principais bancos do país.

Um jovem que sonhava com a casa própria também repensou a decisão após o mercado recuar. Aaron Johal, de Toronto, de 24 anos, que via na aquisição de imóveis a continuidade de um histórico familiar positivo com propriedades, viu o valor das casas despencar. Entre o início de 2022 e o fim do ano passado, os preços recuaram 16,8%, a maior queda desde 1975.

“O mercado imobiliário canadense é o investimento que quero fazer?” questiona Johal. “Não vejo mais com a mesma confiança que tinha antes.”

Condições de juros e efeito no ritmo de queda

Desde o começo do ano, o Banco do Canadá reduziu a taxa de juros em três ocasiões para estimular o crescimento diante da desaceleração econômica, com o movimento mais recente buscando mitigar o impacto das tarifas impostas aos EUA. Mesmo assim, o mercado de imóveis não ganhou impulso suficiente até agora.

  • Custos de moradia e a participação do setor na economia deixaram de crescer rapidamente: de 9% do PIB em 2021 para 6,4% hoje.
  • Emprego ligado a venda, aluguel e construção de moradias caiu 0,5% no nível nacional, enquanto a mão de obra na construção de novas casas recuou 0,8%, conforme dados oficiais.

Analistas destacam que as perdas de vagas nesses setores foram maiores do que a média do setor privado, sugerindo que a crise do mercado imobiliário pode estar, na prática, retardando a recuperação econômica.

“Podemos estar entrando em um ciclo longo de queda no mercado imobiliário residencial canadense. O setor pode ficar desfavorecido para o PIB por um período significativo”, aponta um economista.

Preços, acessibilidade e o peso das taxas

Mesmo após a correção, o imóvel continua pouco mais acessível para a maioria dos canadenses. Os preços estão no nível de 2021, e as taxas de hipoteca permanecem bem acima dos patamares vistos durante a pandemia, mantendo a capacidade de compra estável próximo ao que era observado no início de 2022, pouco antes do pico do mercado.

Embora as taxas de juros tenham caído desde o começo do ano, continuam mais que o dobro do ritmo observado há uma década. Isso deixou muitos compradores pré-correção com dificuldades financeiras, principalmente quem tem hipotecas com taxas variáveis ou precisa renovar empréstimos com custos mais altos. Um número crescente de proprietários precisa vender para conter pagamentos.

Percepção de risco entre compradores e investidores

Relatos de incerteza se multiplicaram, pressionando quem considerava adquirir imóveis. Akash Aggarwal, gerente de produto de TI de 29 anos em Vancouver, disse que, apesar de ter condições de comprar, decidiu adiar a decisão por temor de desvalorizações futuras.

“Tenho muito medo de investir agora e ver o valor depreciar caso algo ruim aconteça depois”, afirmou.

Essa nova avaliação dos riscos imobiliários ocorre em meio a um contexto macroeconômico desafiador, com tarifas dos EUA afetando a indústria canadense. A pressão tarifária elevou o desemprego e atingiu setores como aço e alumínio, alimentando a incerteza econômica e fortalecendo a cautela dos compradores.

Construção e oferta em Toronto e Vancouver

O mercado fraco também impacta o ritmo de construção, com sinais de sobreoferta em alguns projetos de condomínios. Em Vancouver, o início de novos empreendimentos residenciais atingiu o nível mais baixo desde 2009, e em Toronto a construção caiu para o menor patamar desde 2007 no segundo trimestre deste ano.

Adrian Rocca, CEO da Fitzrovia, maior incorporadora de apartamentos para aluguel do Canadá, aponta que grandes investidores institucionais têm ficado afastados, o que reduz o financiamento para novos lançamentos. “Estamos observando o capital institucional permanecer à margem para os inícios de novas obras”, diz ele.

Perspectivas e cautela entre investidores

Historicamente, muitos projetos de apartamentos nasceram da demanda de pequenos investidores. Hoje, a situação financeira desses investidores é mais desafiadora, pois os rendimentos de aluguel dificilmente cobrem as hipotecas.

Rahim Surani, consultor de gestão de 32 anos de Toronto, que atua também como investidor, relata que, após adquirir uma casa para si em 2022 e outro imóvel em Hamilton antes das tarifas, planeja agir com maior prudência no futuro. Mesmo sem fechar a porta para novas compras, ele não espera que qualquer novo investimento tenha o mesmo retorno da casa herdada de seus pais, que valorizou significativamente ao longo de 20 anos.

“Era algo como: você nunca erra ao investir em uma casa. Hoje, penso que você pode errar”, afirma.

Conclusão

A combinação de uma correção de preços alarmante, um mercado de crédito ainda restrito e tarifas externas aponta para um período de maior cautela no mercado imobiliário canadense. Com Toronto e Vancouver enfrentando sobras de oferta e investidores reavaliando estratégias, o papel do setor na trajetória da economia pode permanecer no foco das atenções nos próximos trimestres.

Fonte: Bloomberg

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *