Brasil e EUA na crise: há saída possível?
By Iris Andrade
Brasil e Estados Unidos em fase tensa, com foco em contenção de danos e oportunidades
O relacionamento entre Brasil e Estados Unidos atravessa o estágio mais complexo em quase duas décadas, marcado por demandas difíceis do governo norte‑americano e pela busca de caminhos para reduzir danos enquanto surgem possibilidades de cooperação. A situação é analisada por Bruna Santos, diretora do programa de Brasil no think tank Inter-American Dialogue, com sede em Washington.
Em meio à agenda de encontros que se aproxima, Santos destaca que a crise tem camadas distintas e exige respostas em várias frentes. A tensão envolve não apenas aspectos políticos, mas também a percepção sobre o alinhamento estratégico entre os dois países, especialmente diante de disputas que afetam a relação bilateral de longa data.
Contexto da crise e o que está em jogo
Segundo a analista, não há solução rápida para o núcleo político da crise. O pedido feito pelo presidente Donald Trump ao governo brasileiro — relacionado a descontinuar processos envolvendo o ex‑presidente Jair Bolsonaro — é visto como pouco viável na prática, deixando o Brasil com espaço reduzido para manobras políticas imediatas.
Frente a esse cenário, a principal estratégia passa pela contenção de danos. O entendimento é de que o setor privado brasileiro deve manter o diálogo com pares nos Estados Unidos, assegurando que dados sobre a relação comercial circulem de forma clara e que o risco de uma descontinuidade entre as economias seja minimizado. Esse fluxo de informações sustenta os benefícios econômicos da parceria enquanto a política se redefine.
Três níveis de saída para a crise
- Vórtice político: não há solução de curto prazo para as pressões políticas entre Brasília e Washington.
- Contenção de danos: agir de forma prática para manter laços de negócios e evitar uma ruptura estrutural entre as duas economias.
- Oportunidades: encarar a crise como espaço para enfrentar questões pendentes, como a complexidade das cadeias globais de suprimento, riscos de maior fechamento econômico e a necessidade de cooperação com países que desejam evitar o choque EUA–China.
Como conter danos e abrir oportunidades
Para ampliar a cooperação prática, Santos aponta que o Brasil deve manter o diálogo contínuo, ajustar a narrativa e promover ações concretas em áreas de interesse comum. A interdependência econômica entre Brasil e EUA é destacada como peça-chave para a recuperação de uma base política estável no longo prazo.
Ela cita ainda exemplos de impactos positivos da relação, como investimentos brasileiros que geram empregos em território americano — exemplificado pela Suzano em Arkansas — e a dependência de cadeias de suprimento estratégicas dos EUA em relação ao Brasil. Essas histórias ajudam a demonstrar que a parceria não se resume a tensões, mas resulta em ganhos para comunidades e trabalhadores de ambos os lados.
Do lado brasileiro, é crucial sinalizar disposição para melhoria do relacionamento, reforçar a resiliência democrática e manter uma diplomacia proativa. Além disso, é necessário ampliar a compreensão sobre o Brasil em Washington, com o objetivo de explicar a relação em termos de longo prazo e de cooperação prática em setores estratégicos.
A visão sobre o papel do Inter-American Dialogue
A criação do Brazil Program no Inter-American Dialogue ocorreu após a migração do Brazil Institute, anteriormente sediado no Wilson Center. A transição ocorreu em meio ao encerramento das atividades do Wilson Center, movimento que teve impacto relevante na política externa em Washington. Hoje, o programa se posiciona como a principal iniciativa dedicada ao Brasil e às relações Brasil–EUA na capital norte‑americana.
Bruna Santos ressalta que o projeto busca oferecer pesquisa independente, diálogo e engajamento político sobre o cenário brasileiro, combinando uma visão objetiva com casos concretos de cooperação em áreas como comércio, investimento, tecnologia e clima. Em resumo, o programa atua para “explicar o Brasil” aos decisores em Washington.
O que acontece na ONU e como o Brasil é visto em Washington
Com a Assembleia Geral da ONU próxima, a leitura de Santos é de que o evento tende a afirmar o Brasil no eixo de uma ordem multilateral, um posicionamento que, segundo ela, tende a contrastar com a agenda defendida pela gestão Trump. Assim, a possibilidade de aproximação entre Lula e Trump durante a reunião é vista como improvável.
Possíveis desdobramentos de políticas americanas
Quanto ao espectro de medidas futuras, a analista aponta que o cenário é incerto, com several bandeiras possíveis. Entre as prováveis, destacam‑se a ampliação das sanções Magnitsky para incluir mais autoridades e familiares, a extensão dessas sanções ao Executivo, a imposição de tarifas generalizadas sobre importações brasileiras de derivados de petróleo russo, além da retirada de algumas exceções já existentes nas tarifas iniciais.
Imagem do Brasil em Washington e a atuação dos democratas
A avaliação sobre a imagem do Brasil em Washington é de desafio. A percepção negativa durante a gestão Trump é atribuída à menor atenção dedicada ao país na política externa, à escassez de quadros com conhecimento aprofundado sobre o Brasil e a sensação de alinhamento do Brasil com adversários estratégicos dos EUA. No Congresso, há um núcleo de apoiadores do Brasil no Brazil Caucus, mas fora dele o interesse é menos intenso, e as ações dos Democratas aparecem mais simbólicas do que decisivas para impedir medidas duras contra o Brasil.
Quais são os objetivos do programa Brasil no Inter-American Dialogue?
O Brazil Program visa oferecer pesquisa independente, diálogo e engajamento político para compreender o cenário brasileiro e suas relações com os EUA e o mundo. O objetivo é apresentar uma narrativa equilibrada, destacando não apenas tensões, mas também exemplos concretos de cooperação e benefícios mútuos em áreas como comércio, investimento, tecnologia e clima. Em resumo, o programa atua para contextualizar o Brasil para tomadores de decisão em Washington.
Fonte: Exame