Bacias em desequilíbrio: dois terços
By Iris Andrade
Dois terços das bacias hidrográficas globais estão desequilibradas, aponta relatório da OMM
Um relatório divulgado pela Organização Meteorológica Mundial (OMM) indica que o ciclo hidrológico global está se tornando cada vez mais imprevisível, com eventos extremos de água se tornando mais frequentes e intensos. O documento aponta que apenas uma fração das bacias hidrográficas do mundo manteve condições normais nos últimos seis anos.
Contexto global
Conforme o relatório, o ano de 2024 ficou registrado como o mais quente desde o início dos registros, com temperaturas globais aproximadamente 1,5°C acima dos níveis pré‑industriais. Esses padrões elevam consideravelmente os riscos de secas, enchentes e outros extremos climáticos, de acordo com consensos científicos amplamente aceitos.
Rios e áreas afetadas
- Vazões abaixo do normal foram observadas em grandes sistemas fluviais, incluindo as bacias do Paraná, São Francisco, Paraguai e Orinoco.
- Em Assunção, o rio Paraguai atingiu o nível mais baixo em seis décadas.
Brasil: extremos em paralelo
O país vivenciou, no último ano, dois grandes desastres hídricos em regiões distintas: enchentes severas no Rio Grande do Sul, com dezenas de mortes e milhões de pessoas afetadas, e a seca mais intensamente registrada na Amazônia. O rio Negro, em Manaus, atingiu níveis históricos mínimos, enquanto parte da Amazônia enfrentou chuvas abaixo da média. A seca também impactou a agropecuária, pescadores artesanais e comunidades ribeirinhas, gerando prejuízos significativos em várias regiões.
Tendências para o futuro
O texto ressalta que sinais de aquecimento oceânico, derretimento de geleiras e redução do gelo marinho no Ártico devem continuar, contribuindo para a elevação do nível do mar. Especialistas indicam que ondas de calor, secas e inundações tendem a ocorrer com maior frequência e intensidade nas próximas décadas.
Medidas recomendadas
Entre as recomendações estratégicas estão a redução rápida das emissões de gases de efeito estufa, o aprimoramento do armazenamento de água por meio de reservatórios e soluções de planejamento urbano que funcionem como “esponjas” para áreas de inundação. Também é defendida a adaptação de técnicas agrícolas para uso mais eficiente da água disponível e o fortalecimento do monitoramento global da água, com foco especial na América do Sul, Ásia e África.
No Brasil, o Cemaden é apontado como referência em monitoramento de desastres, mas o relatório sugere ampliar a cobertura e a integração dos serviços climáticos para respostas mais rápidas.
“Informação confiável, baseada na ciência, é mais importante do que nunca, porque não podemos gerenciar o que não medimos”, afirma Celeste Saulo, secretária-geral da OMM, no prefácio do relatório.
Conexões com o dia a dia
Os impactos de longo prazo incluem a necessidade de planejamento institucional para resiliência hídrica, bem como a importância de políticas públicas que integrem dados climáticos, gestão de recursos hídricos e infraestrutura urbana para reduzir vulnerabilidades frente a eventos extremos.
Fonte: Folha de S.Paulo