Americanense vence o Kili inspirado pelo pai
By Iris Andrade
Psicóloga de Americana conquista topo do Kilimanjaro, apoiada por um legado familiar
Imagine escalar o ponto mais alto da África, com 5.895 metros de altitude, sem ter prática anterior em montanhismo. A psicóloga Bianca Daher Berselli Santos, 41 anos, natural de Americana, realizou a façanha em julho, chegando ao cume do Monte Kilimanjaro, na Tanzânia. A motivação veio do pai, Angelo Berselli, 68 anos, empresário têxtil que já tinha planejado acompanhar a filha, mas precisou abrir mão da aventura 20 dias antes devido a um problema nas costas.
Angelo, que iniciou no montanhismo aos 50 anos, já acumulava mais de 20 montanhas no currículo, com passagens por continentes como América do Sul, Europa e Ásia. Apesar de considerar o Kilimanjaro uma despedida das expedições de grande altitude, ele deixou claro que continuará explorando outras aventuras, ainda que em um ritmo mais suave.
Como a jornada aconteceu
Bianca resolveu seguir com a ideia, mesmo com o cancelamento do pai. Ela já vinha se preparando há cinco meses, e acabou convidando Michela Fraschetti, amiga que tinha demonstrado interesse em participar. O grupo envolvido na expedição contava com 21 pessoas, sob a orientação de uma equipe especializada em altas-alturas. A travessia durou oito dias, com temperaturas que chegaram a -15°C, sensação térmica de até -30°C e caminhadas de aproximadamente sete horas diárias.
Momentos de desafio e superação
Um dos momentos mais marcantes ocorreu quando Bianca precisou lidar com mal-estar e sensação de solidão. “Minha cabeça estava me sabotando, mas eu me lembrava dos ensinamentos do meu pai. O grupo foi incrível, dizia que não iria me deixar para trás. Ressurgi como uma fênix”, recordou a psicóloga. O apoio da equipe foi essencial para que ela chegasse ao final da jornada, mesmo diante de dificuldades físicas e de sono.
O próprio Angelo ficou surpreso com a demonstração de solidariedade entre os participantes. “Montanhismo costuma ser competitivo e individualista. Ver essa união foi raro; em situações extremas, as máscaras caem”, comentou. Bianca, por sua vez, percebeu um despertar de empatia após a experiência: “Do mesmo jeito que fui acolhida, também quero acolher.” Durante a descida, ela ajudou colegas a superar dores e medos, reforçando o aprendizado de que a dor passa e a força pode ser compartilhada.
O que ficou de lição
Mesmo com condromalácia grau 4 no joelho, Bianca enfrentou chuva, neblina e exaustão. Ao final, havia ganhado cerca de 4 kg de massa muscular em cinco meses de treino, e chegou a depender de ajuda para permanecer em pé nas etapas finais. “Faltando seis horas, precisei ser carregada. Foi um momento muito difícil. Mas pensei: se a montanha me chamou, eu vou dar conta”, afirmou.
Os conselhos de Angelo sobre hidratação, alimentação adequada e descanso foram apontados como fundamentais para o sucesso. “A teoria faz sentido, mas só vivendo para entender. Montanha é assim: ou você se apaixona ou nunca mais volta”, disse ele. Ao término da expedição, Bianca relatou ter se transformado pela experiência, descrevendo o renascimento como um momento de aquecer o coração e ampliar a percepção de força interior.
Olhando adiante
Com o retorno, Bianca já sinaliza novas metas. O grupo de amigos discutiu subir o Monte Elbrus, na Rússia, e Bianca admite estar aberta a novos desafios. “Achei que não fosse querer mais, mas o grupo já fala nisso. Se a montanha chamar, eu vou”, afirmou. A experiência também reforçou o desejo de Bianca de ampliar a empatia com outras pessoas, inclusive acolhendo quem precisa de apoio durante trajetos difíceis.
Angeli Berselli encerra a história passando o bastão para a filha, destacando o valor de valorizar o que existe na América do Sul antes de buscar horizontes distantes: “O que temos na América do Sul é fantástico. Não precisa ir para o outro lado do mundo. Vamos valorizar o que temos aqui.”
Fonte: O Liberal