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A obra pioneira de Warchavchik ainda resiste

By Iris Andrade

Warchavchik e a arquitetura modernista que moldou São Paulo há um século

Há cerca de 100 anos, Gregori Warchavchik inseriu no debate urbano brasileiro a ideia de uma arquitetura da máquina, rompendo com o gosto eclético que dominava as cidades. Hoje, as obras do arquiteto russo que aportou ao Brasil em 1923 ainda estão de pé em São Paulo, mas enfrentam o desgaste do tempo e disputas sobre sua preservação.

Casas que abriram caminho ao moderno

Na Vila Mariana, a Casa Modernista, construída em 1927, na rua Santa Cruz, 325, foi a primeira residência no país a seguir esses princípios. Originalmente idealizada para morar com a esposa Mina, de família Klabin, a residência permanece como registro emblemático da ideia de “uma casa que funciona como máquina de morar”. O imóvel, hoje sob gestão do Museu da Cidade e do Parque Modernista, passou por intervenções ao longo dos anos, mas mantém o volume e a concepção que marcaram o surgimento do modernismo no Brasil.

Edifício Mina Klabin: modernismo aliando comércio e moradia

Outra peça importante é o edifício Mina Klabin, de 1939, localizado na Alameda Barão de Limeira. Com varandas curvas e detalhes que remetem ao art déco, o prédio foi concebido para aluguel e não ostenta um modernismo radical. Ao longo do tempo, passou por restaurações profundas, inclusive nas fundações, sob a responsabilidade de Carlos Warchavchik, neto do arquiteto, que hoje mantém ali um apartamento alugado habitado por profissionais da área de arquitetura.

Herança cultural e resistência à erosão urbana

As ações de preservação envolvem não apenas as casas residenciais, mas também espaços ligados ao movimento modernista. O Pacaembu abriga dois exemplos preservados de obras de Warchavchik, na rua Bahia e na Itápolis, ambas de 1930. Além disso, em determinado momento, a cidade sediou a Exposição de uma Casa Modernista, que reuniu obras de artistas como Lasar Segall, Brecheret, Anita Malfatti e Tarsila do Amaral, transformando o lar do arquiteto em vitrine de uma visão de mundo que promovia a arte como parte da casa moderna.

Desafios de preservação e disputas institucionais

Ao longo dos anos, boa parte das obras foi modificada ou desfigurada, o que reacende o debate sobre o que deve ser protegido. A residência da Rua Santa Cruz, por exemplo, está em gestão compartilhada entre o Museu da Cidade e o Parque Modernista, vinculados à Secretaria Estadual do Verde e Meio Ambiente. A guarda compartilhada, contudo, gerou dúvidas sobre responsabilidades e atraso de projetos de restauração, com planos de restauro freados em alguns momentos por questões administrativas. Houve ainda rumor de transferir imóveis para instalação de museus temáticos, como a ideia de criar um Museu da Casa Brasileira, o que acabou adiando ações de preservação por parte da prefeitura.

Quem mantém o legado ativo

Especialistas têm defendido a visão de Warchavchik como o introdutor da arquitetura modernista no Brasil e visualizam a diferença entre modernismo — que expressa a ideia da era da máquina — e o moderno, que ajudou a projetar o Brasil como referência arquitetônica. O histórico movimento por restaurações ganha fôlego com equipes de manutenção contínua e com a preservação de espaços que ainda funcionam, como o edifício Mina Klabin, que hoje abriga moradia e atividades de estudo de arquitetura, mantendo vivo o espírito de uma época em que SP ficou marcada pela energia criativa de uma nova linguagem arquitetônica.

Olhar para o futuro

Especialistas e instituições apontam que a preservação depende de diálogo entre governo, museus e comunidade, para assegurar que as obras continuem disponíveis ao público sem perder a essência de sua construção original. A expectativa é que, nos próximos anos, avanços na restauração, tombamentos e gestão pública mantenham acesa a memória de Gregori Warchavchik e de um período que mudou para sempre a paisagem urbana da cidade.

Fonte: Folha de S.Paulo

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