A fé decide quem é vizinho no condomínio
By Iris Andrade
Fé virou critério de vizinhança: condomínio evangélico chega ao RJ
Um novo empreendimento localizado em Nova Iguaçu, na Baixada Fluminense, tem atraído a atenção de fiéis evangélicos: o Residencial Clube Manancial da Fé. O projeto propõe reunir moradores que compartilham da mesma fé em um condomínio fechado com infraestrutura de clube, incluindo piscina, área gourmet, play e academia. Os blocos receberão nomes inspirados em cidades bíblicas, como Betânia, Nazaré e Belém.
Segundo o idealizador Alcindo Plácido, de 55 anos, a proposta é um produto de afinidade, conceito já utilizado em clubes de categorias profissionais há décadas. A ideia é reduzir atritos entre vizinhos ao criar um ambiente com valores comuns, oferecendo imóveis de qualidade voltados a um público específico. A construção está em andamento, com entrega prevista entre 18 e 24 meses. O empreendimento terá 420 apartamentos, com metragens entre 44 m² e 51,5 m², distribuídos em dois quartos. O financiamento pode ocorrer pelo programa Minha Casa, Minha Vida, com preço médio estimado em cerca de R$ 260 mil.
Até o momento, o projeto já mobilizou cerca de 2 mil interessados, com 60 unidades reservadas e 35 contratos aprovados pela Caixa Econômica Federal. Plácido aponta que o público busca um lar tranquilo, com valores semelhantes e estrutura de qualidade, destacando a percepção de que o modelo atende a uma demanda de afinidade entre famílias com valores semelhantes.
A iniciativa nasceu de uma estratégia que o empresário já havia testado anteriormente, em 2008, com o Reserva da Paz, um loteamento no bairro Marapicu. O Manancial da Fé surge como uma evolução: comunicar valores de fé e tradição aliando moradia acessível a uma estrutura de clube.
Caso haja procura além do esperado, há a possibilidade de expandir o terreno ao lado, além de levar o mesmo modelo para outras cidades da região com forte presença evangélica, como Duque de Caxias, no RJ, e Anápolis, em Goiás.
Marketing nas igrejas e participação da comunidade
O público-alvo, que vem se tornando mais jovem, tem participação expressiva de pessoas com menos de 30 anos. A divulgação ocorre dentro das igrejas, com exibição de um vídeo após o culto e a disponibilização de um QR Code que direciona à Victória, assistente virtual com inteligência artificial que esclarece dúvidas, exibe imagens e simula financiamentos. O projeto já encontra apoio de cerca de 400 templos da região, com participação de membros e pastores.
Para o idealizador, esse tipo de empreendimento pode abrir caminho para uma tendência no mercado imobiliário: oferecer produtos alinhados aos valores das pessoas, criando não apenas moradia, mas comunidade. Ele ressalta que, além de uma possível fronteira de negócios, esse formato pode funcionar como um novo conceito de habitação de afinidade.
Contexto demográfico e planejamento regional
Dados do Censo Demográfico de 2022, divulgados em 2025, indicam aumento na participação de evangélicos no Brasil, com a presença de evangélicos representando cerca de 26,9% da população do país. Em Nova Iguaçu, a concentração de templos religiosos é alta: há aproximadamente um local de culto para cada 188 moradores, o que reforça a viabilidade de projetos voltados a comunidades de fé. A estimativa é de que, em Nova Iguaçu, aproximadamente 1 em cada 3 moradores seja evangélico, fortalecendo o ambiente de negócios voltado a esse público.
O projeto é apresentado como uma morada edificada sobre alicerces de família e tradição, com foco na convivência informal entre vizinhos com valores compartilhados. O andamento da obra prevê a entrega dentro de pouco mais de um ano.
Embora o foco inicial seja o público evangélico, o planejamento contempla possibilidades de expansão para parques vizinhos e, eventualmente, outras cidades com presença significativa de templos, ampliando o conceito de habitação por afinidade.
As avaliações indicam que, para quem busca uma moradia com perfil específico, a proposta pode representar uma nova vertente do setor, combinando custo, qualidade e comunidade.
Fonte: UOL Economia — Daniele Dutra