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O que o debate urbano não diz sobre a raça na cidade

By Iris Andrade

Por que o debate urbano ainda silencia a questão racial

Especialistas em urbanismo, arquitetura e direitos humanos apontam que o racismo estrutural está entranhado na forma como as cidades foram moldadas no Brasil. Um movimento articulado pela Rede BrCidades defende que reparar a cidade não é apenas incluir mais pessoas negras, mas desmontar as bases epistemológicas herdadas do colonialismo que sustentam as práticas urbanísticas atuais.

Contexto histórico

O desenvolvimento urbano brasileiro tem raízes na expulsão de comunidades negras, na higienização e na remoção de populações tradicionais. Ao longo de séculos, a acumulação de capital moldou a organização territorial e social de uma elite branca, abrindo espaço para uma arquitetura e um direito da cidade marcados pela exclusão racial.

A lógica do reparo urbano

Para que a reparação seja efetiva, é preciso mais do que “inclusão” superficial. É essencial desconstruir as epistemologias que legitimam a produção do espaço a partir de uma visão racializada. O debate aponta que a prática urbanística dominante funciona como um dispositivo de dominação racial, mantendo privilégios e controlando quem pode produzir saber sobre a cidade.

Periferias como espaços de exceção

As áreas periféricas costumam ser tratadas como territórios onde o Estado atua de forma restrita, o que alimenta uma gestão racializada dos corpos. A consequência é a naturalização de desigualdades, com mortes e violências que muitas vezes são tratadas como problemas secundários ou irrelevantes.

Caminhos propostos pela Reforma Urbana Popular

  • Pensar raça, classe e gênero como bases estruturantes das políticas públicas e da produção do espaço;
  • Descentralizar o poder, criando espaços de decisão com forte presença negra e de comunidades tradicionais;
  • Desmercantilizar a moradia e regularizar territórios negros e periféricos;
  • Promover uma governança participativa, com decisões populares vinculantes;
  • Colocar a vida das pessoas negras no centro das políticas urbanas, ao lado de direitos humanos e sustentabilidade.

Rede BrCidades e atuação

A Rede BrCidades tem questionado a baixa presença de liderança negra em organizações de planejamento urbano e avançado na construção de um projeto político que una raça, classe e gênero. Em eventos recentes, a bandeira da Reforma Urbana Popular foi consolidada como um marco para acender a discussão e orientar estudos, pesquisas e espaços de participação.

Impacto e próximos passos

O movimento aposta na reconstrução de uma democracia urbana que conte histórias do ponto de vista das camadas populares. O objetivo é um país onde o direito à cidade seja inseparável do direito à vida, com territórios desprovidos de preconceitos raciais e adaptados a uma visão antirracista de desenvolvimento.

A proposta de Brasil Cidades busca, a longo prazo, cidades socialmente justas e ambientalmente viáveis, subsidiadas por uma prática urbana que reconheça a contribuição histórica de pessoas negras, mulheres e comunidades tradicionais na formação do espaço brasileiro.

Fontes de referência para o debate indicam que o silêncio sobre raça não é neutro e que romper com ele exige mudança estruturante na formação de políticas públicas, na educação profissional e na governança do espaço urbano.

Fonte: CartaCapital

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