O que a Exposição Nacional revelou sobre o Brasil moderno?
By Iris Andrade
Memória da Eletricidade lança mostra digital sobre a Exposição Nacional de 1908
A Memória da Eletricidade iniciou, em 16 de outubro de 2025, a segunda mostra da sua série, intitulada A Exposição Nacional de 1908, disponível na plataforma Google Arts & Culture. A exposição reúne fotografias raras do acervo para reconstruir o grande evento que celebrou o centenário da abertura dos portos do Brasil e mostrou aos brasileiros e ao mundo o estágio de desenvolvimento do país na época.
Para ampliar o entendimento sobre o tema, a equipe ouviu a arquiteta e museóloga Ruth Levy, autora de um estudo sobre a arquitetura efêmera que marcou a exposição.
Durante o século XIX, exposições internacionais ganharam espaço para apresentar progressos econômicos. O Brasil participou de eventos em Londres (1867), Filadélfia (1876) e Paris (1889), mas, nessas ocasiões, as riquezas naturais costumavam se sobressair. No início do século XX, o governo federal resolveu promover a primeira Exposição Nacional de 1908, realizada na Praia Vermelha, na então desocupada Urca, no Rio de Janeiro. O espaço ocupava 182 mil m² e recebeu mais de um milhão de visitantes entre 11 de agosto e 15 de novembro de 1908.
“O grande foco era mostrar para o mundo em que pé estávamos em termos de civilização e de cosmopolitismo. Havia uma ideia determinista e evolucionista de que as nações evoluem até a idade do progresso e devem apresentar isso; havia a pretensão de provar que estávamos prontos para competir com os países mais desenvolvidos”, analisa Ruth Levy.
Arquitetura imponente e atrações
Ao longo do espaço, foram exibidos produtos agrícolas, industriais, pastoris e de artes liberais, mas a grandiosidade das construções chamou a atenção de estrangeiros e locais. O conjunto de trinta edificações, em estilo ecletico, era marcado pela monumentalidade, ornamentação rica e a mistura de estilos como neoclássico, barroco e renascentista. Detalhes nas fachadas, colunas, janelas e portas se destacavam em meio a uma paisagem de efeitos decorativos.
Para Levy, a liberdade criativa dos arquitetos decorreu, em parte, da temporalidade do evento: as exposições eram projetadas para ter aspecto de perenidade, mas teriam curta duração. “As exposições têm arquitetura produzida para ter monumentalidade, mas duram poucos meses. Não é um edifício que precisa conviver no cenário urbano por décadas, então o autor pode ousar mais, e isso aconteceu em 1908”, comenta a pesquisadora.
- Palácio dos Estados, com estandes, vitrines e áreas que retratavam o país
- Palácio das Indústrias, reunindo manufaturas, inovações técnicas e bens industriais
- Um corredor de 560 metros ligando os palácios aos pavilhões estaduais, institucionais e culturais
- Arquiteturas de instalações como Corpo de Bombeiros, Correios e Sociedade Nacional de Agricultura
- Extensa área expositiva na Avenida dos Estados, hoje Avenida Pasteur
- Além das peças, destacavam-se exemplos como a Fábrica Bangu (inspirada em mesquita), o Pavilhão da Música (inspirado em templo egípcio) e o pavilhão de Santa Catarina (um chalé composto por 150 tipos de madeiras)
A exposição também contou com um sistema de circulação que conectava os espaços por meio de um trenzinho com iluminação especial, contribuindo para a experiência visual do conjunto.
Legado para a Urca e para o Rio de Janeiro
Entre os impactos do evento, destaca-se a abertura de caminhos para o desenvolvimento da Urca, área então pouco habitada. A exposição motivou obras de aterro hidráulico e melhorias urbanas que prepararam o terreno para o futuro loteamento do bairro, além de estimular investimentos em eletrificação, transporte e acesso.
A iluminação da mostra foi outro aspecto marcante, que merece um tratamento futuro na memória histórica da cidade. Levy reforça que o resgate da memória é essencial para entender o presente e planejar o futuro, avaliando o que aconteceu desde 1908.
Como acompanhar a exposição
A exposição está disponível na plataforma Google Arts & Culture, com o título A Exposição Nacional de 1908. A Memória da Eletricidade já divulgou, anteriormente, Piabanha, um século de história, sobre a construção da Usina Hidrelétrica Alberto Torres.
Fonte: Memória da Eletricidade