Frank Gehry: o fim da era que prometia mudar cidades
By Iris Andrade
Obituário: Frank Gehry e o fechamento de uma era em que a arquitetura acreditava ser capaz de mudar cidades
Frank O. Gehry faleceu aos 96 anos, em Santa Monica, marcando o fim de uma trajetória que remodelou não apenas a estética da arquitetura contemporânea, mas também a forma como edifícios podem influenciar o destino das cidades. Seu legado vai além de desenhos icônicos: ele ajudou a redefinir o papel público da arquitetura, ao transformar espaços urbanos e economias locais.
Entre as obras que melhor ilustram essa mudança de paradigma está o Guggenheim Bilbao, inaugurado em 1997. Mais que um museu revestido de metal, o empreendimento tornou-se um marco geopolítico: Bilbao passou de uma cidade industrial a um estudo de caso global sobre como um único equipamento cultural pode reativar uma economia, atrair fluxo turístico e redesenhar o mapa urbano. Esse efeito Bilbao tornou-se um dos conceitos mais influentes do urbanismo das últimas décadas, repetidamente citado e replicado ao redor do mundo.
Um arquiteto que se tornou símbolo cultural
Gehry ultrapassou a função técnica de projetar prédios. Sua produção passou a inspirar artistas, cineastas e designers, abrindo espaço para que a forma fosse tratada como experiência pública. O Disney Concert Hall, em Los Angeles, ampliou o diálogo entre arte, montagens urbanas e monumentalidade; o Stata Center no MIT gerou debates intensos entre funcionalidade e experimentação. Até mesmo a casa construída em Santa Monica, que o lançou ao estrelato, permanece como uma declaração de que o cotidiano também pode ser reinventado.
Ao longo dos anos, Gehry transformou seus projetos em símbolos de possibilidades: prédios que parecem vivos, em movimento, desafiando a gravidade e o peso da história modernista que dominou o século XX. Em Elciego, na Espanha, o Hotel Marques de Riscal, inaugurado em 2006, traduz o histrionismo característico de Gehry em uma leitura contemporânea da hospitalidade.
Por trás das curvas de titânio e das superfícies irregulares, no entanto, havia uma mensagem: a arquitetura podia gerar expectativas, encontros e, por vezes, novas economias locais. Essa visão de Zumbo de cidade retomada pela cultura pairou como referência para várias capitais regionais e centros urbanos que ainda buscam lugares de destaque no mapa global.
Mas o mundo mudou. O fenômeno que Guthrie ajudou a consolidar já não goza da mesma aceitação. as cidades enfrentam restrições orçamentárias, a confiança em ícones urbanos diminui e questões urgentes — clima, densidade demográfica, habitação, mobilidade e desigualdade — passam a exigir soluções mais complexas, integradas e sustentáveis. Nesse contexto, a arquitetura precisa conciliar ambição com responsabilidade ambiental e social, um desafio que Gehry mesmo reconheceu nos seus últimos períodos de atividade.
O que fica como lição? A obra de Gehry continua a provocar surpresa e a questionar convenções. O que faz uma cidade vibrar, segundo ele, não é apenas a grandiosidade de um único edifício, mas a capacidade de criar encontros improváveis entre arte e vida cotidiana. Em muitas cidades brasileiras e internacionais, a pergunta persiste: é possível transformar territórios urbanos sem abrir mão de responsabilidade social, climática e econômica?
Marcos marcantes e a ideia de que a arquitetura pode agir no tecido urbano ajudam a entender o legado de Gehry. Ele não apenas projetou obras inesquecíveis; desenhou possibilidades e provocou reações – uma combinação que, para muitos, permanece como o impulso essencial da transformação urbana.
Fonte de referência: Focus Poder