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Descubra o bambu que resiste a terremotos na arquitetura

By Iris Andrade

Casas de bambu surgem como opção resistente a abalos sísmicos em várias regiões

22 de novembro de 2025

Ao redor do mundo, estudos e projetos apontam para o bambu como material com alto potencial de resistência a terremotos. Em Manta, cidade litorânea do Equador atingida por um forte terremoto em 2016, muitas construções de bambu permaneceram em pé, incluindo um mercado e um posto de bombeiros sob um pavilhão de bambu.

Segundo Pablo Jácome Estrella, dirigente regional da Organização Internacional de Bambu e Rattan (Inbar), “todas as casas tradicionais de bambu existentes naquela região foram erguidas antes do terremoto e permaneceram de pé.” Esse testemunho reforça a percepção de que o bambu pode oferecer flexibilidade e leveza que ajudam a suportar abalos sísmicos.

Por que o bambu ganha relevância na construção sísmica

O bambu, há milênios utilizado em várias regiões, se destaca pela leveza e pelo caule oco, que reduz a massa das estruturas. Pesquisadores ressaltam que, em áreas de terremotos, é essencial que as construções possam se mover sem colapsar. Uma estudiosa observação é de Bhavna Sharma, da Universidade da Califórnia: a ideia é que as estruturas precisam “se mover” de forma controlada durante o tremor.

A partir de uma avaliação de mais de 1,2 mil edificações em Manabí, ficou evidente que estruturas de concreto reforçado sofreram danos maiores do que construções de bambu e madeira. Ainda assim, os pesquisadores alertam para interpretar tais dados com cautela, já que muitos edifícios já haviam sido demolidos semanas após o terremoto.

Casas novas em Manabí e o retorno do bambu

Um projeto iniciado em 2021 pela Inbar, em parceria com a Agência Espanhola de Cooperação para o Desenvolvimento Internacional, levou à construção de centenas de novas casas de bambu na província de Manabí, onde fica Manta. O programa também ensinou técnicas de construção com bambu a cerca de 200 alunos da Universidade de Manabí, incluindo o tratamento dos caules e a montagem de painéis.

O custo estimado de uma casa de dois quartos fica abaixo de US$ 20 mil, segundo Pablo Jácome Estrella. O método utilizado é inspirado no bahareque, também conhecido como pau a pique, em que uma rede de bambu é coberta por argila úmida. Segundo os pesquisadores, essas casas combinam resistência com baixo custo, além de serem mais leves do que opções convencionais.

  • Bahareque: rede de bambu coberta por argila
  • Casas na região de Manabí com foco em baixo custo
  • Treinamento acadêmico para estudantes locais

O papel histórico e institucional do bambu

Desde a virada do século, pesquisadores passaram a olhar com mais seriedade para o bambu como material de construção. O terremoto de 1999 na Colômbia desencadeou interesse internacional, levando a Fundação Base Bahay, criada em 2014, a estudar o desempenho do bambu e promover cursos e laboratórios.

Especialistas apontam que, apesar de o bambu natural ainda exigir processos de tratamento, o uso em códigos de construção globais vem avançando. A ISO adotou normas sobre bambu desde 2021, enquanto diversos países — como Peru, Equador, Bangladesh, Índia e México — desenvolveram códigos nacionais. Filipinas e Nepal trabalham na adoção de seus próprios padrões.

Kaminski, engenheiro da Arup, ressalta que o maior benefício das estruturas de bambu é o peso reduzido: menos força sísmica atua nelas, o que diminui o risco de desabamentos quando o projeto, a construção e a manutenção são bem executados. Há, no entanto, a advertência de que o bambu pode ser vulnerável se não for devidamente tratado contra insetos e infiltração de água. Para manter o desempenho, recomenda-se proteção de telhados, paredes à prova d’água e manejo adequado.

Bambu em ações de emergência e reconhecimento internacional

Cases de uso em desastres mostram aplicações criativas do bambu. No Paquistão, após cheias devastadoras em 2022, pesquisadores desenvolveram moradias de baixo custo com tijolos de barro, telhados de bambu e paredes de bambu, reduzindo a dependência de aço. Essas estruturas, implantadas com materiais locais, funcionaram como abrigos resistentes a enchentes.

Autoridades internacionais reconhecem o valor de soluções locais baseadas em bambu para reconstrução sustentável, embora ressaltem que a disseminação depende de testes de laboratório, de códigos de construção apropriados e da aceitação da comunidade. Em alguns casos, grandes projetos de reconstrução seguiram padrões mais tradicionais com madeira e bambu para complementar a infraestrutura existente.

Perspectivas globais: usos e limites do bambu na construção contemporânea

Arquitetos ao redor do mundo exploram possibilidades que vão desde pavilões temporários no Vietnã até jardins de bambu em aeroportos na Índia. Nos Estados Unidos e na Europa, o bambu está presente, porém seu uso continua restrito pela disponibilidade de espécies adequadas e pela necessidade de padrões consistentes para aplicações de construção.

Há ainda avanços em projetos de maior escala, com a ideia de edifícios mais altos utilizando bambu. Pesquisadores indicam que o bambu, se bem planejado, pode contribuir para reduzir as emissões de carbono associadas à construção, além de favorecer a equidade ao promover soluções de baixo custo com menos impacto ambiental.

Conquistas, desafios e o futuro do bambu

Entre os desafios, está a necessidade de manter o bambu seco e bem protegido contra insetos e umidade. A ideia de que o bambu é apenas “o material dos pobres” vem sendo desafiada por projetos inovadores que demonstram desempenho sísmico robusto a baixos custos.

Casos de sucesso incluem casas construídas pela Base Bahay nas Filipinas, com comprovada resistência a tufões e a abalos, além de demonstrações de resiliência em contextos de desastre. A percepção pública está mudando lentamente, à medida que mais dados e experiências comprovam a confiabilidade do bambu quando bem conduzido.

Em resumo, especialistas afirmam que o bambu continua mostrando potencial significativo para a construção resiliente, desde comunidades costeiras até áreas afetadas por inundações. O caminho envolve padronização, treinamento local, testes consistentes e responsabilidade com a qualidade da construção.

Fonte: BBC News Brasil

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