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Condomínio-bairro: a nova moda em SP

By Iris Andrade

Condomínios-bairro ganham espaço em São Paulo, unindo moradia, comércio e serviços

Uma tendência de urbanismo vem ganhando força na capital paulista: grandes empreendimentos ocupam terrenos extensos e criam minicidades com áreas residenciais, comerciais e de lazer, com segurança privada e infraestrutura integrada. Os exemplos mais citados incluem projetos em diferentes regiões da cidade, que atendem desde famílias de alta renda até famílias atendidas por programas habitacionais.

Cidade Sete Sóis, em Pirituba

Um dos casos de maior envergadura, o Cidade Sete Sóis, ocupa um terreno de quase 1,7 milhão de m², tamanho superior ao de alguns parques icônicos da cidade. A previsão é entregar, inicialmente, 650 famílias por meio de programas públicos de crédito e habitação, com o projeto completo contemplando milhares de unidades, financiadas em parte pelo Minha Casa Minha Vida. O desenvolvimento reserva cerca de 750 mil m² para áreas verdes, parques lineares, praças e ciclovias, além de contar com estrutura de comércio, serviços e transporte nas vias internas. A MRV estima concluir as primeiras fases já na primeira metade de 2026, com um total de aproximadamente 11 mil apartamentos projetados para a década, incluindo moradias com financiamento público.

Segundo Camila Fiuza, diretora de desenvolvimento da MRV, o conjunto tem como diferencial a compatibilidade entre renda regional e o tipo de produto ofertado, proporcionando previsibilidade e um espaço urbano misto dentro do próprio bairro. A organização prevê ruas de circulação livre, pontos de ônibus e presenças de supermercados e lojas no entorno das unidades.

Parque Global, na Zona Sul às margens da Marginal Pinheiros

O Parque Global figura entre os maiores megaprojetos do gênero na América Latina, com valor geral de vendas estimado em 14,2 bilhões de reais. O empreendimento prevê duas torres habitacionais de alto padrão com planos de ampliar o conjunto para incluir um shopping de luxo e uma unidade de oncologia do Hospital Albert Einstein. A proposta visa aproximar moradia, trabalho e serviços num conceito de cidade em 15 minutos, com áreas de uso misto e mobilidade integrada. Os primeiros edifícios já foram entregues, abrindo espaço para futuras fases de expansão.

André De Marchi, diretor de incorporação do Parque Global, aponta que o desafio central é manter o terreno bem localizado e obter o licenciamento, além de montar um mix de usos que sustente o conceito de bairro planejado. O projeto também enfrenta a condenação de prazos longos e licenças, típicos de grandes empreendimentos, que impactam o retorno financeiro.

Reserva Raposo e o movimento de bairros integrados

Na Zona Oeste, próximo ao extremo de Osasco, destaca-se o Reserva Raposo. O terreno de 450 mil m² foi adquirido em 2013, e o projeto já revelou etapas com várias unidades entregues e outras em construção, todas voltadas a moradias de interesse social. O conjunto prevê a formação de 15 condomínios entregues e mais 20 em desenvolvimento, com a expectativa de abrigar entre 80 mil e 90 mil moradores quando concluído, por volta de 2033. O bairro privado administra a segurança nas ruas públicas que o cercam, com monitoramento por câmeras, pontos de ônibus conectando aos sistemas municipais, e um terminal rodoviário no conjunto.

Verena Balas, diretora da RZK Empreendimentos, explica que o conceito nasce da intenção de transformar território em um espaço completo, com áreas públicas e institucionais implantadas desde o início, exigindo estudos de impacto ambiental detalhados para o licenciamento. O comércio local já existente inclui supermercados e lojas, com previsão de serviços de saúde, creches, escolas e espaços esportivos.

Jardim das Perdizes, bairro planejado na Barra Funda

Outro exemplo citado é o Jardim das Perdizes, lançado pela Tecnisa em 2013. O empreendimento ocupa 250 mil m², com 11 prédios residenciais de alto padrão, duas torres comerciais e um parque público de 46 mil m². A meta é chegar a 20 edifícios no total, totalizando cerca de 8 mil moradores, em um conjunto com vias de livre circulação e segurança mantida pela própria operação, com previsão de ampliação gradual ao longo dos anos.

Fernando Tadeu Perez, CEO da Tecnisa, classifica o condomínio-bairro como uma tendência sólida: ele ressalta a valorização do tempo, bem-estar e mobilidade inteligente, além de ver o formato como urbano e replicável em outras regiões do país.

Críticas e reflexões sobre a homogeneização urbana

Especialistas comentam que a padronização de grandes volumes populacionais dentro de um único espaço pode gerar bairros com menos diversidade de renda e usos, o que, segundo críticos, reduz a conectividade com a cidade como um todo. O professor Fábio Mariz Gonçalves, da USP, destaca que a uniformidade de moradores e atividades pode transformar o entorno em uma esfera homogênea, prejudicando a riqueza de cenários que caracteriza bairros diferentes, como Higienópolis ou Santa Cecília, que concentram humor, comércio sofisticado e infraestrutura variada.

Considerações finais

Os condomínios-bairro aparecem como resposta a uma demanda por urbanismo contemporâneo, conforto, mobilidade e previsibilidade de custos. No entanto, o modelo envolve desafios de licenciamento, aquisição de terrenos e manutenção de diversidade social dentro de áreas cada vez maiores. Resta observar como esses projetos vão evoluir e se adaptar ao ritmo de cidade, mantendo o equilíbrio entre conveniência, convivência plural e integração com o restante da metrópole.

Fonte: O Globo

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