Brasília, a segregação que surpreende o país
By Iris Andrade
Brasília: estudo revisita ideia de cidade segregada e traça paralelos com Soweto
Uma tese defendida na Universidade de Brasília (UnB) em 2022 analisa a cidade de forma diferente da tradição de elogio ao planejamento urbano. O trabalho propõe que o projeto de Brasília tenha reforçado a exclusão racial e afastado parte da população negra e de baixa renda do centro da capital. Segundo o estudo, Ceilândia e Taguatinga assumem papéis análogos aos distritos do Soweto, na África do Sul, símbolo histórico do apartheid.
O estudo, intitulado No Dilacerar do Concreto, é assinado pelo historiador Guilherme Oliveira Lemos. A pesquisa sustenta que, mesmo com contextos distintos, Brasília e Joanesburgo compartilham estruturas históricas de ocupação e segregação que teriam sido mantidas por políticas urbanas alinhadas a um passado colonial.
“Assim como em Joanesburgo, as ocupações humanas nas satélites de Brasília seguiram as regras já estabelecidas pelo passado colonial”, afirma o pesquisador Guilherme Oliveira Lemos.
O que o estudo aponta sobre a sequência histórica de Brasília
Segundo a análise, o planejamento de Brasília privilegiou áreas centrais para quem tinha maior poder aquisitivo, mantendo uma distância física entre o centro simbólico do poder e comunidades de renda mais baixa. Uma das explicações apresentadas é a criação de áreas de proteção ambiental com a justificativa de preservar o Lago Paranoá, que, na prática, acabou funcionando como mecanismo de segregação.
Além disso, a pesquisa associa a construção de Brasília a fluxos migratórios significativos, principalmente de famílias negras, indígenas e pardas, que buscaram oportunidades na nova capital. O argumento central é que o desenho urbano não foi neutro, mas carregado de decisões políticas que moldaram a distribuição de moradias e serviços.
Ceilândia e Taguatinga ganham o papel de Soweto
Na comparação proposta pelo autor, Ceilândia e Taguatinga emergem como áreas de acolhimento de migrantes e trabalhadores que chegaram à região central em busca de empregos na fase de implantação da cidade. A dinâmica de ocupação é descrita como uma resposta pragmática a necessidades habitacionais emergentes, mas com consequências de segregação espacial ao longo do tempo, refletidas no acesso a serviços, infraestrutura e valores de aluguel.
A narrativa sustenta ainda que a criação dessas regiões administrativas esteve associada a uma das maiores campanhas de remoção de população do Distrito Federal. Entre 1971 e 1972, um processo de reorganização foi responsável por desabrigar dezenas de milhares de pessoas, com impactos que, segundo o estudo, repercutem até hoje.
Arquitetura modernista e violência estrutural
O trabalho aponta que a arquitetura modernista, símbolo de ordem e progresso, também pode ter contribuído para uma leitura de exclusão. A estética da época, associada a conceitos de limpeza e “pureza”, seria, na prática, um instrumento para retirar da paisagem urbana elementos considerados incompatíveis com a visão de cidade ideal.
Para Ludmila Correia, pesquisadora da UnB, “a segregação aqui foi, de fato, planejada pelo Estado”, o que eleva a gravidade do caso em comparação com outras cidades brasileiras. O argumento é de que o acesso aos espaços mais valorizados, como o Plano Piloto, permanece restrito a boa parte da população, com aluguéis elevados que empurram famílias para áreas mais afastadas.
“O Plano Piloto é uma cidade icônica e bela, mas, na prática, seu privilégio é de poucos”, afirma Ludmila Correia.
A memória do trabalho e a violência invisibilizada
Outra dimensão discutida pelo estudo é a forma como a violência estrutural ficou marcada na memória da construção. Ao descrever a história dos chamados Candangos, o pesquisador lembra que trabalhadores negros participaram ativamente da edificação, muitas vezes sem reconhecimento adequado. Um episódio emblemático é o que levou à construção de um auditório dedicado às vítimas do soterramento de dois trabalhadores durante a obra, o que o estudo utiliza para discutir como a narrativa histórica pode ocultar as raízes das desigualdades.
Segundo a pesquisadora Ludmila Correia, reconhecer a desigualdade como parte do projeto original da cidade é essencial para avançar em políticas públicas que permitam um direito à cidade mais amplo, inclusivo e compartilhado por todos os moradores, incluindo os territórios periféricos.
Dados que ajudam a entender a desigualdade hoje
- Estudos demográficos apontam que, em 2021, mais de 57,3% da população do Distrito Federal se declara negra, com variações entre as regiões administrativas.
- A região mais atingida pela concentração de população negra é a Estrutural, enquanto uma das áreas com menor proporção de negros é o Lago Sul, refletindo assimetrias de renda e acesso.
Implicações e caminhos para o futuro
A síntese do estudo sugere que a discussão sobre o “direito à cidade” precisa considerar a história de exclusão incorporada ao desenho urbano. O argumento central é que o esforço por uma cidade mais inclusiva passa pelo reconhecimento das desigualdades como parte do enredo original e pela implementação de políticas que promovam participação, pertencimento e dignidade para comunidades periféricas.
As leituras apresentadas destacam a importância de debater o papel do Estado na conformação do território urbano e de buscar caminhos que tornem o acesso aos espaços urbanos mais justo e plural.
Fontes: estudo de Guilherme Oliveira Lemos, pesquisador da UnB, e contribuições de Ludmila Correia, pesquisadora associada da mesma instituição.
Fonte: G1