Bambu que resiste aos terremotos: o segredo
By Iris Andrade
Bambu: soluções antigas ganham força nas construções resistentes a abalos sísmicos
A resiliência sísmica do bambu começa a ser reconhecida de forma mais ampla, à medida que projetos em diversas regiões demonstram como esse material tradicional pode reduzir danos e ampliar a segurança em terremotos. De Tarqui, no Equador, a Manabí, no mesmo país, e até áreas de Paquistão e Filipinas, o bambu tem ganhado espaço em obras que priorizam leveza, flexibilidade e sustentabilidade.
Casos que ficaram na memória
Em abril de 2016, um terremoto de grande intensidade atingiu o Equador, devastando Manta. O distrito de Tarqui, no centro da cidade, ficou entre as áreas mais afetadas. Surpreendentemente, dezenas de estruturas de bambu resistiram ao tremor, entre elas um pavilhão de bambu que abrigava o mercado de peixe, o posto dos bombeiros e um centro de informações turísticas. Ao longo da cidade e da província de Manabí, centenas de casas de bambu permaneceram em pé, muitas delas erguidas antes do terremoto.
Segundo Pablo Jácome Estrella, dirigente regional da Inbar (Organização Internacional de Bambu e Rattan), essas construções sobreviveram graças à natureza do bambu: caules ocos e leves reduzem a massa da estrutura, permitindo que ela se mova com o terremoto em vez de se tornar instável. “Elas permaneceram de pé”, afirma.
Os engenheiros ressaltam que, para que a flexibilidade funcione, é essencial que o projeto, a construção e a manutenção sejam de qualidade. A professora Bhavna Sharma, da Universidade do Sul da Califórnia, descreve esse comportamento como “natureza projetada para vergar” — o objetivo é controlar o quanto a edificação se move durante o sismo.
Avaliações após o terremoto
Uma investigação com mais de 1,2 mil construções em Manabí sugere que as estruturas de concreto reforçado sofreram danos maiores do que as de bambu e madeira em média. No entanto, pesquisadores alertam que esses dados devem ser interpretados com cautela, pois foram coletados semanas após o evento, quando muitas obras já haviam sido demolidas.
Inbar e a Agência Espanhola de Cooperação para o Desenvolvimento Internacional lançaram, em 2021, um projeto que construiu centenas de casas de bambu em Manabí. Além de erguer moradias, o programa ensinou técnicas de tratamento dos caules e de montagem de painéis a alunos da Universidade de Manabí. O custo de uma casa de dois quartos ficou próximo de US$ 20 mil, valor comparável a construções com materiais convencionais.
O método tradicional por trás dessas casas é o bahareque (pau-a-pique): uma rede de bambu coberta por argila úmida. Os pesquisadores veem nesse sistema uma via de construção que é renovável, de baixo carbono e compatível com comunidades locais.
Padrões, códigos e desafios
O interesse por normas técnicas de bambu ganhou impulso após o terremoto de 1999 na Colômbia. A Fundação Base Bahay, criada em 2014, passou a investigar o desempenho do bambu e a colaborar com governos para entender como introduzir esse material de forma segura. O Bangladesh, a Índia, o Peru e o México já adotaram códigos nacionais que reconhecem o bambu, enquanto Filipinas e Nepal trabalham na formulação de regras próprias. A ISO já tem diretrizes desde 2021, mas padronizar caules naturais continua desafiador devido às variações de tamanho e formato.
Especialistas destacam que, embora o bambu seja leve e capaz de amortecer parte das forças sísmicas, o desempenho depende diretamente de tratamento contra insetos e umidade, bem como de telhados eficientes e paredes à prova d’água para manter o material seco.
Bambu em alta velocidade e em situações extremas
Arquitetos e engenheiros continuam a explorar o potencial do bambu além de estruturas simples. Em diversos locais, pesquisas apontam para a construção de edificações mais altas com esse material, o que poderia ampliar o uso do bambu em áreas densas. Em cenário de desastres, há experiências de abrigos de emergência envolvendo bambu, como casas de baixo custo no Paquistão, que utilizam tijolo de barro, telhados de bambu e paredes com bambu, reduzindo a dependência de aço.
Casos de impacto humano e reconhecimento
Uma pesquisadora paquistanesa desenvolveu modelos de baixo custo que resistem a grandes tremores, inspirados em métodos tradicionais. Em 2023, recebeu uma medalha de ouro de uma instituição britânica de arquitetura por esse trabalho humanitário. Em contrapartida, muitos relatos indicam que, após desastres, as decisões de reconstrução costumam favorecer materiais comuns como tijolo e concreto, dificultando a adoção mais ampla do bambu, em parte por questões de testes de laboratório e códigos locais.
Apesar dos obstáculos, há consenso entre especialistas de que o bambu, quando bem utilizado, oferece benefícios ambientais, de resiliência e de inclusão social. A partir de experiências na Colômbia, Filipinas e Paquistão, governos e organizações passaram a enxergar o bambu não apenas como uma solução econômica, mas como uma estratégia de construção segura, sustentável e mais conectada às comunidades locais.
Impacto cultural e visão de futuro
Pesquisadores ressaltam que o uso do bambu pode mudar a percepção de moradia nas comunidades: de um material muitas vezes visto como inadequado, passa a ser visto como parte de um ecossistema de construção que equilibra leveza, resistência e conexão com a natureza. Em algumas regiões, a prática está recomendando a adoção de telhados robustos, madeira tratada e impermeabilização para assegurar a durabilidade do bambu ao longo do tempo.
Fonte de inspiração para designers e engenheiros, o bambu tem alimentado debates sobre como reduzir o carbono na construção civil, manter custos sob controle e promover técnicas de construção que respeitem o meio ambiente e as tradições locais.
Fonte: BBC Brasil