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Arquitetura popular revela moradia digna

By Iris Andrade

Arquitetura popular utiliza parcerias privadas para promover moradia digna

Durante a 2ª Trienal de Arquitetura e Urbanismo, promovida pelo CAU/RS, nasceu um debate sobre como escritórios populares conectam recursos privados a famílias que vivem em condições precárias de moradia. A atuação destacada é liderada pela arquiteta Karol Rosa de Almeida, fundadora da Kopa Coletiva Arquitetura Popular, que defende a ideia de que a arquitetura social pode, de fato, “hackear o sistema” para ampliar o acesso à habitação adequada.

Contexto e marco legal

Tradicionalmente, o atendimento aos públicos de classes A e B fica com a arquitetura convencional, enquanto as camadas D e E deveriam ser contempladas pela Lei 11.888 de 2008, que garante assistência técnica pública e gratuita para projetos de habitação de interesse social. Contudo, uma parcela da população reside na periferia e investe do próprio bolso para construir ou reformar, muitas vezes sem a devida orientação técnica nem o apoio público necessário.

Quem é quem no movimento

Karol Rosa de Almeida cresceu no bairro Restinga e afirmou que a própria trajetória, desde a formação em arquitetura e urbanismo via o Programa de Financiamento Estudantil (FIES), moldou seu objetivo de retornar à comunidade. Na prática, escritórios populares funcionam como pontes: trazem recursos para moradias precárias e, em muitos casos, remuneram os profissionais através de patrocínios privados, preservando a qualidade da execução sem depender integralmente do poder público.

Como funciona a arquitetura popular

Segundo Karol, o benefício para a família ocorre de graça, seguindo o que prevê a lei. A diferença é que o pagamento ao arquiteto vem de recursos privados, o que evita precarizar a profissão ao depender exclusivamente de doações ou de ações assistencialistas. “A gente patrocina a obra com o capital privado; é uma forma de não precarizar a nossa profissão”, explicou a arquiteta.

A Kopa Coletiva também realiza projetos pro bono para associações da sociedade civil em periferias, que precisam melhorar suas sedes, mas não dispõem de recursos para pagar pelo serviço. Em alguns casos, as entidades captam recursos e, posteriormente, decidem se remuneram os arquitetos ou não.

Desafios e críticas

Karol ressalta que o ato de usar recurso privado não é o cenário ideal, mas surge como resposta à fragilidade de políticas públicas. Ela afirma que o assistencialismo tem papel importante, porém não pode tornar a prática uma solução permanente que prejudique a qualidade profissional. “A melhoria habitacional é, muitas vezes, caso a caso e não é lucrativa; ainda assim, é possível fazer”, disse.

Impactos e dados no Rio Grande do Sul

Uma nota técnica do Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea) aponta que o Rio Grande do Sul possui 562.595 famílias com algum tipo de inadequação habitacional. Para resolver o problema, o custo estimado para todo o estado supera 12 bilhões de reais. A pesquisadora enfatiza que os números podem subestimar a realidade, já que dependem de dados autorreferidos e variam conforme o território.

Karol insiste que o RS, apesar de ter avanços, tem uma quantidade considerável de famílias que precisam de intervenções estruturais, e que políticas públicas mais robustas são necessárias para qualquer solução de longo prazo.

Conjuntura recente e mobilização

Depois de uma enchente que afetou áreas da capital, houve um crescimento no número de profissionais atuando em arquitetura popular. A prática tem se mostrado, para muitas famílias de baixa renda, uma via prática para melhorar moradias sem depender exclusivamente de ações públicas que nem sempre chegam de forma rápida ou suficiente.

Perspectivas futuras

Karol finaliza que a esperança é que o movimento cresça o suficiente para, um dia, não precisar existir. Enquanto isso não ocorre, ela defende que a atuação colaborativa entre setor público, privado e sociedade civil é fundamental para enfrentar o déficit habitacional de forma imediata e responsável, sem abandonar a qualidade da profissão.

Fonte: Sul21

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